Transtornos de personalidade

Os transtornos de personalidade são caracterizados por traços inflexíveis, duradouros e inadaptados que causam problemas funcionais importantes, sofrimento subjetivo ou uma combinação de ambos no indivíduo.
Transtornos de personalidade
Bernardo Peña

Escrito e verificado por el psicólogo Bernardo Peña em 23 Julho, 2021.

Última atualização: 23 Julho, 2021

A personalidade humana é composta por um conjunto de padrões cognitivos, emocionais e comportamentais muito enraizados e estáveis ao longo do tempo. Esses traços estão presentes em muitas situações e contextos. Então, quais são os transtornos de personalidade?

São desvios nesses padrões, que os tornam inflexíveis, rígidos, desviados do que é culturalmente aceitável e que geram um grande sofrimento no indivíduo ou nas pessoas que o rodeiam.

Além disso, é aquilo que diz qual é a essência da pessoa. O mais profundo e arraigado; quais são suas ações, pensamentos, sentimentos, etc. Isso é o que está transtornado.

Como veremos, a solução é difícil se esse problema não for trabalhado corretamente. Além disso, esse trabalho deve ser feito por muito tempo. As psicoterapias não mudarão a personalidade do paciente, mas podem torná-lo consciente de seus problemas. Além disso, elas promovem mudanças cognitivas, comportamentais e emocionais.

Transtornos de personalidade

Transtorno de personalidade bipolar.

Dentro dos transtornos de personalidade, temos três grupos bem definidos:

  • Grupo A (raro ou excêntrico): paranoide, esquizoide e esquizotípico.
  • Grupo B (dramático, emocional ou instável): antissocial, histriônico, narcisista e limítrofe.
  • Grupo C (ansioso e com medo): dependente, esquivo e com transtorno de personalidade obsessivo-compulsivo.

Transtornos de personalidade do grupo A (raro ou excêntrico)

Três transtornos de personalidade estão incluídos neste grupo: personalidades paranoide, esquizoide e esquizotípica.

Transtorno de personalidade paranoide

Pessoas com transtorno de personalidade paranoide apresentam um padrão geral de desconfiança injustificada em relação aos outros.

Portanto, elas são incapazes de confiar nos outros, pois questionam a lealdade deles. Além disso, elas percebem qualquer sinal ambíguo como ameaçador ou malicioso. Isso as deixa o tempo todo na defensiva, hipervigilantes e guardando um grande rancor dentro de si.

Desconfiança.

Tudo isso leva essas pessoas a serem excessivamente rígidas, sem emoção e muito distantes dos demais.

Essa personalidade é extraordinariamente resistente a mudanças. Dessa forma, as pessoas com esse transtorno não buscarão ajuda devido ao sentimento de desconfiança que possuem em relação aos outros, além de, muito provavelmente, não percebem seu próprio problema.

Algumas explicações psicanalíticas sugerem que essas pessoas usam a projeção como mecanismo de defesa. Ou seja, elas negam seus próprios impulsos inaceitáveis e os atribuem aos outros: eu não tenho problema, os outros têm.

Transtorno de personalidade esquizoide

Pessoas com transtorno de personalidade esquizoide são vistas como isoladas socialmente, frias e indiferentes em relação aos outros. Assim, essas pessoas são descritas por outras como solitárias e taciturnas.

Geralmente, elas costumam viver sozinhas e participam de poucas atividades de lazer. Se elas têm contato com outras pessoas, ele se limita ao básico, porque essas pessoas não querem ou não gostam de se relacionar com os outros.

Isolamento, associal, ler livro na cama.

Elas também não se sentem atraídas pela ideia de encontrar um parceiro, casar e constituir família. Tampouco costumam se sentir atraídas pela ideia de manter relações sexuais com outras pessoas.

Essas pessoas não têm amigos além dos familiares. Além disso, a falta de interesse em manter outras relações humanas pode levá-las a se distanciar até mesmo da própria família.

Essas pessoas raramente buscarão psicoterapia, uma vez que não se incomodam com a ideia de viverem isoladas. Portanto, elas não percebem que precisam mudar nenhum aspecto da própria vida.

Transtorno de personalidade esquizotípica

Pessoas com transtorno de personalidade esquizotípica apresentam pensamentos e comportamentos muito peculiares (excessivamente raros) e, além disso, têm relações sociais muito precárias. Elas podem dizer que têm poderes ou que veem o que os outros não podem ver. Costumam agir e se vestir de uma forma muito chamativa e a sua presença não costuma deixar ninguém indiferente.

O pensamento delas é marcado por uma série de distorções ou dificuldades cognitivas. Elas frequentemente apresentam problemas de isolamento social, afeição inadequada e pensamento e linguagem muito estranhos. Além disso, tudo isso pode estar somado à suspeita em relação aos outros.

Transtorno de personalidade esquizotípica.

De vez em quando, algumas delas podem acabar buscando um psicólogo, mas por motivos alheios a esse transtorno como ansiedade, depressão ou crises importantes. De fato, elas mostram uma evidente falta de consciência do seu problema de personalidade. Às vezes a prescrição de ansiolíticos e a terapia dinâmica é eficaz no tratamento, juntamente a elementos cognitivo-comportamentais.

Transtornos de personalidade do Grupo B (dramático, emocional ou instável)

Este grupo de transtornos de personalidade inclui quatro transtornos que têm um denominador comum: são pessoas muito erráticas, volúveis e instáveis.

Transtorno de personalidade antissocial

Pessoas com transtorno de personalidade antissocial são caracterizadas por ter pouca ou nenhuma empatia com os outros. Frias e manipuladoras, elas não hesitam em prejudicar ou tirar vantagem dos outros.

Dessa forma, esse padrão de comportamento antissocial faz com que elas fracassem na sua adaptação à sociedade e tenham, ou tenham tido, um histórico conflitivo, até mesmo com a lei.

Isolamento, antissocial, esquizoide.

A sua relação com os outros é determinada por emoções muito superficiais, com um aparente encanto que encerra a falta de ética e lealdade. Geralmente, elas não têm escrúpulos em violar as convenções sociais ou as normas que governam a sociedade.

Da mesma forma, elas não se sentem culpadas ou responsáveis por suas ações. Além disso, apresentam uma notável impulsividade e, por fim, são insensíveis à punição.

Dificilmente veremos alguém com transtorno de personalidade antissocial buscar ajuda psicológica. Na maioria das vezes, eles irão para a psicoterapia contra sua vontade e à força. Suas mentiras constantes e promessas vazias fazem com que a terapia seja difícil de realizar.

Transtorno de personalidade limítrofe

O transtorno de personalidade limítrofe é caracterizado por uma instabilidade muito acentuada no humor, na percepção de si mesmo e nos relacionamentos interpessoais.

Pessoas com esse transtorno apresentam uma impulsividade notável e um vazio crônico que é muito difícil de preencher. Quanto ao relacionamento com os outros, elas podem passar rapidamente da idealização ao desprezo.

Essa instabilidade emocional constante leva a um sofrimento muito difícil de suportar, o que gera constantes comportamentos auto lesivos ou tentativas de suicídio. Cabe destacar a enorme comorbidade deste transtorno com outros de caráter psicológico (transtornos alimentares, sexuais, ansiedade, depressão…). No entanto, eles não são a causa, mas sim o efeito desse padrão de personalidade.

Parecem existir dois aspectos cruciais na personalidade limítrofe:

  • Dificuldade em regular as emoções.
  • Relações interpessoais muito instáveis.

Para resolver esse problema, Linehan (1993) desenvolveu a terapia comportamental dialética, que ensina essas pessoas a regular suas emoções, tolerar a angústia, prevenir comportamentos auto lesivos e desenvolver um plano de vida ajustado a metas e objetivos importantes para a pessoa.

Transtorno de personalidade histriônica

Pessoas com transtorno de personalidade histriônica se caracterizam por querer ser o centro constante das atenções. Além disso, elas se distinguem pelo drama, exagero nas emoções e pela sedução como instrumento de incentivo ao contato com os outros.

Pessoas histriônicas geralmente são muito superficiais e egocêntricas. Portanto, elas rapidamente ficam frustradas ou com raiva se deixarem de ser o foco das atenções.

Nesses casos, a soma de fatores biológicos (como a excitabilidade autônoma) e fatores psicossociais (como o reforço infantil de comportamentos de busca de atenção ou exposição a modelos parentais histriônicos) pode levar à expressão dos sintomas desde a adolescência.

Cabe destacar que as personalidades histriônicas são difíceis de mudar. Essas pessoas podem procurar ajuda profissional por outros motivos como angústia, depressão ou dificuldades nos relacionamentos interpessoais.

Somente a estreita relação terapeuta-paciente e o trabalho com as suposições e distorções cognitivas do paciente podem fazer com que essas pessoas, aos poucos, alcancem o insight necessário sobre seu problema.

Transtorno de personalidade narcisista

Narcisismo ,câmera, selfie, histriônica.

As principais características das pessoas com transtorno de personalidade narcisista são o egocentrismo, senso exagerado de auto importância e falta de empatia.

Essas pessoas exigem atenção constante, e que os outros mostrem admiração, respeito e subordinação. Elas costumam sonhar acordadas, vendo a si mesmas em uma fantasia de poder ou fama ilimitados.

Desse modo, alguns autores psicanalíticos afirmam que o narcisista realmente esconde um sentimentos de inferioridade, rejeitando a si mesmo e inconscientemente atribuindo isso aos outros. A verdade é que seu ego exacerbado, falta de empatia e exploração dos outros esconde uma certa artificialidade e, portanto, uma vulnerabilidade pessoal.

A mudança nessas pessoas é muito difícil. De fato, elas não buscarão voluntariamente a psicoterapia. Caso isso ocorra, será por outros motivos como, por exemplo, sintomas de ansiedade, depressão, etc.

Estabelecer uma relação terapeuta-paciente adequada é essencial para trabalhar o aspecto pessoal e outras questões delicadas em relação à personalidade do indivíduo.

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Transtornos de personalidade do grupo C (ansioso e com medo)

Este grupo inclui os transtornos de personalidade esquiva, dependente e obsessivo-compulsivo. Todos eles têm o medo e a angústia como elementos centrais.

Transtorno de personalidade esquiva

O transtorno de personalidade esquiva é caracterizado pelo medo da rejeição e humilhação por parte das outras pessoas. Da mesma forma que acontece com o esquizoide, essas pessoas estão socialmente isoladas.

No entanto, a diferença fundamental entre o esquizoide e o esquivo é que o primeiro não quer nem deseja o contato social, enquanto o último quer, mas se sente incapaz.

Isolamento, antissocial, limite, transtornos de personalidade.

Muitos pesquisadores apontam a semelhança desse transtorno com a fobia social. No entanto, autores como Marmar (1988) propõem uma explicação mais ampla. Por exemplo, um temperamento inato que predispõe ao transtorno, associado a uma série de experiências de rejeição social.

Esses pacientes poderiam buscar uma consulta psicológica por vontade própria. No entanto, será difícil para eles se abrirem e expressarem todos os seus sentimentos na terapia. O terapeuta deve estabelecer uma relação profissional adequada, que ofereça muita segurança e confiança ao paciente ou ele nunca voltará para a próxima sessão de tratamento.

Transtorno de personalidade dependente

Pessoas com transtorno de personalidade dependente precisam que os outros tomem decisões por elas, ou as ajudem a lidar com a própria vida.

Elas não têm autoconfiança. Além disso, subordinam seus interesses e necessidades às dos outros. Desta forma, seu comportamento será passivo, submisso e elas não tomarão nenhuma iniciativa por vontade própria.

Dependência do casal.

As pessoas dependentes operam principalmente sob duas crenças profundamente arraigadas :

  • Elas se consideram incapazes de progredir por conta própria.
  • O pensamento e comportamento delas são direcionados a encontrar alguém que possa cuidar dele(a).

Alguns pesquisadores concluem que esse transtorno é resultado de estilos parentais super protetores ou autoritários. Esses estilos educacionais supostamente diminuem a capacidade do indivíduo de lidar com a própria vida.

Isso pode ocorrer principalmente porque outras pessoas resolviam tudo por elas ou diziam exatamente o que fazer, sem que elas tivessem que pensar. Na psicoterapia, a assertividade e a autoestima podem ser trabalhadas com elas, com o cuidado de não estabelecer uma relação de dependência entre o terapeuta e o paciente.

Transtorno de personalidade obsessiva-compulsiva (TPOC)

Pessoas com transtorno de personalidade obsessiva-compulsiva (TPOC) são caracterizadas principalmente pela sua rigidez, inflexibilidade e perfeccionismo. Obcecadas por controle, regras, detalhes e obrigações, essas pessoas carecem de espontaneidade de forma absoluta.

TOC, transtorno obsessivo-compulsivo.

Essas pessoas se relacionam com o mundo ao seu redor de acordo com seus próprios padrões rígidos. Elas são incapazes de delegar tarefas ou confiar no bom trabalho dos outros. De fato, quando não conseguem controlar uma situação elas demonstram ansiedade, raiva e preocupação.

Elas sentem medo da mediocridade e de perder o controle. A obsessão pelos detalhes e a execução perfeita das coisas faz com que essas pessoas busquem ajuda profissional para seus sentimentos de insatisfação ou ansiedade e depressão.

O trabalho com esses pacientes é longo e difícil. A terapia cognitivo-comportamental ou psicodinâmica é frequentemente usada.

Conclusões sobre os transtornos de personalidade

A seguir estão algumas conclusões sobre os transtornos de personalidade:

  1. Vários critérios são necessários dentro da mesma categoria ou tipo de transtorno para poder diagnosticar um transtorno de personalidade específico.
  2. As comorbidades costumam aparecer entre transtornos de personalidade do mesmo grupo ou com outros transtornos de categorias diferentes, como os vícios.
  3. As causas dos transtornos de personalidade são devidas a influências biológicas, psicológicas e ambientais. Portanto, não se deve cair no reducionismo absurdo de tentar explicar um transtorno com base em apenas uma dimensão.
  4. Os transtornos de personalidade são difíceis de tratar por dois motivos principais: 1) Falta de consciência do problema e 2) porque se tratarem de padrões cognitivos, emocionais e comportamentais profundamente enraizados no indivíduo
  5. O tratamento mais eficaz para os transtornos de personalidade inclui terapias cognitivo-comportamentais e suporte psicofarmacológico.
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