Alterações da consciência

Neste artigo, responderemos às perguntas sobre o que é a consciência e quais são os níveis que existem. Além disso, veremos as principais alterações que podem ocorrer.
Alterações da consciência
Bernardo Peña

Escrito e verificado por el psicólogo Bernardo Peña em 01 Agosto, 2021.

Última atualização: 01 Agosto, 2021

As alterações da consciência são aquelas que nos impedem de estar conscientes ou perceber os estímulos do ambiente. Desta forma, não podemos perceber, pensar ou realizar qualquer ação voluntária. Sem a consciência, os outros processos cognitivos e/ou comportamentais não podem ocorrer.

Além disso, em segundo lugar, sem estarmos conscientes não somos capazes de prestar atenção. A importância disso reside no fato de que a atenção coordena e dirige o restante dos processos cognitivos. Neste artigo, examinaremos o significado do termo consciência. Veremos também as principais alterações que ela pode apresentar e como avaliá-las.

O que é consciência?

A consciência pode ser entendida como a estrutura que tenta explicar tanto a natureza quanto a função cerebral (fusão de elementos neuroanatômicos, neuroquímicos e neurofisiológicos), por meio da qual um ser vivo pode, por seus próprios meios, perceber estímulos externos e internos.

A inter-relação entre funções psíquicas como percepção, memória ou atenção, juntamente com a integração sensorial dos estímulos, constituem a nossa realidade: o campo da consciência. Por isso se diz que a consciência é um processo dinâmico que pode oscilar, como, por exemplo, nas condições de sono e vigília.

As alterações da consciência impedem o ato de relacionar as funções psíquicas com a integração dos estímulos. Portanto, o indivíduo se desconecta do ambiente e de si mesmo, numa espécie de não-existência; nesse estado não existem sensações, percepções ou consciência de qualquer tipo, nem da passagem do tempo.

Níveis de consciência e alterações da consciência

A consciência pode passar por diferentes níveis ou estados. Alguns podem ser produzidos naturalmente e outros podem ser considerados patológicos.

Existem, portanto, variações normais de consciência, como a alternância entre os estados de vigília e de sono. Assim, a consciência flutua ao longo do dia:

  • Vigília: o indivíduo está totalmente desperto e envolvido em atividades cognitivas. Existe um estado de alerta ideal.
    • Awareness: estado funcional no qual o indivíduo pode realizar um processamento significativo da recepção de estímulos internos ou externos e emitir uma resposta. Existe uma boa capacidade perceptiva e cognitiva com aprendizado e atenção ótimos (clareza de consciência).
  • Sono: o indivíduo se encontra em um período de autorregulação fisiológica, temporária e reversível. Esse período é dividido em cinco estágios que continuam ciclicamente, nos quais ocorrem ondas rápidas e lentas, dependendo da profundidade do sono.
Insônia, dormir à noite, cama.

Em relação às alterações de consciência, elas são divididas em transtornos quantitativos e qualitativos.

Alterações da consciência: transtornos quantitativos

Por elevação do nível de consciência

  • Hipervigilância: o indivíduo está em estado de awareness com maior sensibilidade sensorial, além de aumento da intensidade motora e emocional. A pessoa está constantemente buscando possíveis ameaças, o que a torna mais irritada e exausta física e mentalmente. Este estado pode ser causado por intoxicação, situações de alto estresse, etc.
  • Hiperfrenia: estado de hipervigilância máxima; consciência exagerada.

Pela diminuição do nível de consciência

  • Confusão mental: há um prejuízo nos processos cognitivos da pessoa, um conceito desordenado da realidade, leve perda de memória e incoerência em relação a si mesmo e ao mundo exterior.
  • Névoa mental: ligeira alteração da clareza de consciência. Há diminuição das habilidades cognitivas como atenção, memória, percepção, entre outras. É assimilado ao início do sono normal; a pessoa precisa de uma certa intensidade dos estímulos para torná-los conscientes.
  • Sopor: apreciação mínima da consciência, bem como reflexos e outros movimentos musculares. O indivíduo responde momentaneamente a estímulos muito intensos e repetidos.
  • Pré-coma: o indivíduo está inconsciente, os reflexos centrais como o pupilar e o reflexo corneano são preservados, mas não há respostas como o estímulo à planta do pé, nem mesmo a estímulos muito dolorosos.
  • Coma: última etapa na diminuição da consciência. Nele os reflexos são extintos, ocorrem variações na respiração, apneias, lentidão, etc. Talvez o indivíduo nunca volte à consciência.

Alterações na consciência: transtornos qualitativos

Estreitamento da consciência

  • Estado crepuscular: uma certa atenção concentrada é dada aos estímulos internos, com presença de névoa aos estímulos externos. Um comportamento impulsivo com automatismos é adotado. Existem respostas motoras involuntárias, alheias ao indivíduo mesmo em circunstâncias de certo grau de complexidade, embora aparentemente haja coordenação na execução. Esse quadro é acompanhado por períodos de amnésia, frequentemente lacunares.

Transtornos produtivos da consciência

  • Astênico apático: há labilidade emocional, fadiga, fonofobia (sensibilidade a sons moderados ou altos) e fotofobia (sensibilidade à luz), além de irritabilidade. Ocorrem alterações nos processos de memória, atenção e concentração.
  • Delirium: de curta duração, até duas semanas. Ocorrem alucinações, enredos dramáticos com forte descarga emocional, amnésia e alteração psicomotora.
Memórias cerebrais, alterações mentais.

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Alterações na consciência do eu

  • Anosognosia: é a ignorância, indiferença ou negação de uma parte ou área do corpo que foi danificada ou paralisada, ou cujo funcionamento foi interrompido.
  • Síndrome de Anton-Babinski: a existência do lado esquerdo do corpo não é reconhecida como resultado de uma lesão no hemisfério direito, que produz uma hemiplegia esquerda.
  • Síndrome de Gerstmann: ocorre uma certa desorientação corporal e de direção; por exemplo, confundir a esquerda com a direita. As principais características são:
    • Agnosia digital: dificuldade em identificar os próprios dedos.
    • Agrafia: alterações na escrita sem associação com distúrbios de linguagem.
    • Acalculia: dificuldade em realizar cálculos e operações matemáticas.
    • Apraxia construtiva: dificuldade em realizar tarefas motoras complexas.
  • Hemiassomatognosia: causada por uma lesão maciça em um hemisfério cerebral. O paciente apresenta estranheza ou negligência com uma parte de seu corpo, deixando de limpá-la, etc. É considerada uma forma de agnosia.
  • Autotopagnosia: é outra agnosia mas, neste caso, afeta o sentido da postura. O paciente não consegue localizar ou orientar seu corpo ou membros.
  • Membro fantasma: alucinação perceptual do membro amputado. O indivíduo pode sentir o membro (dores, cócegas, ardor…).
  • Assomatognosia: o paciente não consegue reconhecer, diferenciar e integrar as partes de seu corpo.
  • Agnosia parcial: ignorância parcial de partes do corpo, tais como agnosia digital, agnosia orotátil (dificuldade em reconhecer o próprio queixo e boca) e agnosia tátil (incapacidade para reconhecer objetos através do toque).
  • Prosopagnosia: incapacidade de reconhecer rostos familiares.

Transtornos dissociativos

  • Despersonalização: sensação de estar separado ou desconectado tanto da consciência (o conteúdo da consciência não pertence a ela), quanto do corpo.
  • Desrealização: ocorre uma alteração na forma de perceber a realidade. O indivíduo pode relatar que a realidade é estranha para ele ou ele a vê ‘como em um filme.

Avaliação de alterações da consciência

Eventualmente, podemos medir as alterações da consciência por meio de dois instrumentos: o mini exame do estado mental (mini mental) e a escala de Glasgow.

Mini exame do estado mental (MEEM)

É um exame amplamente utilizado em ambientes psiquiátricos para detectar o comprometimento cognitivo geral. É usado em pacientes neurológicos, psiquiátricos, em estados de demência ou com alteração da consciência.

É um teste de screening, que nos fornece informações sobre a possível existência de comprometimento cognitivo, sem oferecer certeza sobre as causas ou domínio afetado. Esse método não deve substituir uma avaliação clínica. É útil como avaliação inicial, sendo sua aplicação é rápida e fácil.

Escala de Glasgow

É uma escala de medida do nível de consciência de acordo com a observação de três eixos de sinais neurológicos: resposta motora, resposta ocular e resposta verbal. A pontuação é classificada como:

  • Entre 13 e 15: gravidade leve.
  • De 9 a 12: gravidade moderada.
  • Entre 3 e 8: muito grave.

Alterações da consciência: reflexões finais

Concluindo, as alterações de consciência representam um grave problema para o indivíduo, pois o impedem de realizar ações simples como perceber, pensar ou agir. Na perda total de consciência, não há resposta aos estímulos e a pessoa fica presa em uma espécie de estado de não existência.

Por fim, cabe comentar que a avaliação, diagnóstico e tratamento das alterações da consciência devem ser realizados por especialistas da saúde mental. Além disso, essas alterações não devem ser confundidas com flutuações normais da consciência.

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