Insônia e outros distúrbios do sono

A insônia pode alterar dramaticamente a nossa saúde física e emocional. Se você quer saber mais sobre a insônia e os principais distúrbios do sono associados, continue lendo este artigo.
Insônia e outros distúrbios do sono
Bernardo Peña

Escrito e verificado por el psicólogo Bernardo Peña em 23 Julho, 2021.

Última atualização: 23 Julho, 2021

A insônia é um distúrbio do sono caracterizado pela incapacidade de manter um sono raparador. Existem vários tipos de insônia, bem como outros distúrbios do sono que estão intimamente relacionados.

As causas da insônia e, em geral, dos problemas do sono, podem ser genéticas ou ambientais. Neste artigo você descobrirá o que é o sono e por que ele é essencial, bem como os principais distúrbios do sono.

Insônia, por que é necessário dormir?

O estado de vigília é aquele em que a pessoa está acordada ou “vigilante”, ou seja, o indivíduo está totalmente consciente e tem uma alta interação com o ambiente. O sono, por outro lado, é um estado fisiológico de baixa consciência. Ao contrário do coma ou da hibernação, o sono é recorrente e pode se reverter rapidamente.

A transição que ocorre da vigília para o sono é conhecida como “ciclo ou ritmo circadiano” que leva 24 horas para ser concluído. O sono, assim como o apetite e o sexo, são funções básicas da vida. No entanto, eles podem ser alterados por fatores físicos e mentais, o que pode resultar em distúrbios do sono.

Homem sonolento dormindo.

Por que a insônia é tão problemática e o sono tão necessário na vida? Porque dormir ajuda a:

  • Recuperar fisiológica e metabolicamente os diferentes sistemas.
  • Restabelecer o equilíbrio da excitação neuronal.
  • Reorganizar as informações que foram obtidas durante o dia, relacionando-as com a memória de longo prazo.
  • Excluir informações irrelevantes para não sobrecarregar a memória.
  • Restaurar a energia perdida.
  • Consolidar o que foi aprendido durante o dia.

É impossível alguém ficar muito tempo sem dormir, porque essa pessoa morreria. Isso depende do tempo de insônia ou privação de sono e, mesmo ocorrendo total ou parcialmente, a pessoa experimentará diferentes manifestações psicopatológicas.

  • Se houver uma privação de sono por 60 a 200 horas, a pessoa pode ter:
    • Sonolência.
    • Desempenho diminuído: capacidade de concentração reduzida, dificuldade de perseverança nas tarefas e na comunicação verbal.
    • Mudanças de humor.
  • Se a privação de sono for superior a 200 horas, a pessoa terá:
    • Microssonos.
    • Desorientação alopsíquica.
    • Delírios paranóicos.
    • Ilusões.
    • Alucinações.

Características eletrofisiológicas do sono

No sono, 5 níveis fisiológicos foram distinguidos pela polissonografia. Estes são o sono não REM (com suas 4 subfases) e o sono REM.

A sigla REM é interpretada em inglês como Rapid Eye Movement, que quando traduzido para o português significa “movimento rápido dos olhos”. Eles se referem à presença ou ausência de movimentos oculares nas diferentes fases do sono.

Sono não REM

Também é conhecido como sono NREM. Tem a duração de 45 a 60 minutos desde o início da fase I até o final da fase IV. Seu percentual total em relação ao sono é de 75%, sendo 5% na fase I, 45% na fase II, 12% na fase II e 13% na fase IV. Em humanos, existem três fases que compreendem o sono não REM, que são:

Fase I do sono não REM

Este primeiro estágio consiste na transição do estado de vigília para o início do sono. Pode durar de alguns segundos a cerca de 10 minutos. É caracterizado pelo desaparecimento gradual das ondas alfa, típicas dos estados de vigília. Essas ondas, de 8 a 12 ciclos por segundo, começam a ser substituídas por ondas beta, cuja voltagem é maior, sendo de 4 a 7 ciclos por segundo.

Por sua vez, a atividade tônica diminui e ocorrem movimentos oculares lentos. Durante esse estado, o sono pode ser facilmente interrompido, e o indivíduo pode frequentemente retornar ao estado de vigília antes de passar para a fase II.

Fase II do sono não REM

Gráfico do ciclo do sono (ritmos circadianos).

Esta fase ocorre 5 ou 10 minutos após a fase I. De fato, essas duas fases juntas são conhecidas como sono leve.

Sua atividade é de baixa voltagem com frequências semelhantes à fase I. No entanto, dois fenômenos característicos acontecem: os fusos do sono e complexos K. Os fusos sigma são ondas de 12-14 Hz que aparecem com uma frequência de 3 a 8 min e os complexos K são ondas bipolares de alta voltagem que aparecem repentinamente.

Durante esta fase, o limiar para o despertar aumenta. É por isso que um estímulo que teria despertado a pessoa na fase I pode não despertá-la na fase II.

A sua aparição costuma ser considerada como um sinal de que a pessoa está finalmente dormindo. A atividade tônica diminui ainda mais; de fato, os movimentos dos olhos desaparecem quase completamente.

Fases III e IV do sono não REM

Nesta fase, predominam os ritmos delta e teta. Diz-se que, quando o traçado é composto por um valor entre 20% e 50% de ondas delta, o sono já passou para a fase III. Essas ondas têm voltagem de até 100W e frequência de 1 a 3 ciclos por segundo.

Nesta fase os fusos sigma também aparecem esporadicamente e há uma diminuição ainda mais significativa do tônus muscular. Por outro lado, a respiração é mantida regular e a pressão arterial começa a diminuir. Para ser capaz de acordar uma pessoa neste estado, seria necessário um forte estímulo sonoro.

Insônia, dormir à noite, cama.

A Fase IV é uma fase mais profunda. O padrão EGG será o mesmo da fase III, mas, agora, pelo menos 50% das ondas são delta. Esta fase, juntamente com a anterior, constituem o chamado sono profundo. Nessa etapa, os fusos do sono e os complexos K não aparecerão mais.

A pessoa terá maior dificuldade em acordar por estímulos mas, se conseguir, sua resposta será lenta e desajeitada. Além disso, ocorre atonia muscular e a frequência respiratória diminui novamente. Essa fase é difícil de alcançar em pessoas que sofrem de insônia ou outros distúrbios do sono, como sonambulismo e terror noturno.

O sono REM

Esta fase é denominada REM, porque é caracterizada pela presença de movimentos rápidos dos olhos.

O primeiro período REM começa 90 minutos após todos os estados mencionados anteriormente terem sido atingidos. Além disso, ele equivale a 25% do sono total da pessoa. Seu traçado tem uma semelhança elétrica com a fase I. No entanto, este se apresenta um pouco mais rápido.

O ritmo alfa e beta, a frequência cardíaca e respiratória e a pressão arterial serão semelhantes aos da fase de vigília. No entanto, haverá uma anulação completa do tônus muscular, com contrações esporádicas das mãos ou rosto.

Durante a fase REM, a pessoa experimentará sonhos abstratos e surrealistas. Na maioria dos casos, as pessoas que acordam durante essa fase se lembrarão vividamente do que estavam sonhando.

Distúrbios do sono

Eles são divididos em dois grandes grupos: dissonias e parassonias.

Dissonias

Esta categoria está relacionada à duração, intensidade e quantidade de sono. Dentro dela temos a insônia, hipersonia e narcolepsia.

Insônia

A insônia é um distúrbio do sono que envolve dificuldade para iniciar ou manter o sono. Uma vez acordada, a pessoa será incapaz de voltar a dormir, e com isso será difícil que ela esteja descansada e ativa pela manhã.

Insônia, dormir.

Para que uma pessoa seja diagnosticada com transtorno de insônia, ela deve atender às seguintes características:

  • A insônia acontecer pelo menos 3 noites por semana e durante 3 meses.
  • A possibilidade de que a insônia seja secundária a algum outro distúrbio do sono seja descartada.
  • Ela não esteja relacionada ao uso de uma substância.
  • Ela não seja explicada por transtornos mentais ou médicos.
  • Ela ocorra por consequências psicológicas, biológicas ou ambientais.

Em geral, as pessoas que sofrem de insônia têm rotinas prejudiciais ou pouco saudáveis que afetam a qualidade e a quantidade do sono. Por exemplo:

  • Horários irregulares.
  • Jantares numerosos.
  • Consumir de álcool antes de dormir.
  • Fazer exercícios intensos à noite.
  • Ir para a cama muito cedo.
  • Fazer trabalhos ou atividades que exijam alta estimulação cerebral à noite.
  • Ingerir substâncias ou bebidas estimulantes antes de ir para a cama.
  • Viver em setores com muito barulho.
  • Quando a temperatura ambiente é extrema.
  • Quando se está em uma situação estressante.
Homem servindo bebida energética para uma festa.

Algumas das consequências da insônia seriam:

  • Comprometimento funcional.
  • Perda de produtividade.
  • Problemas de atenção.
  • Deterioração da memória.
  • Menor capacidade de se relacionar a nível interpessoal.
  • Alterações de humor.
  • Problemas hormonais e metabólicos.
  • Atraso no crescimento.
  • Envelhecimento precoce.
  • Aumento de peso.

Insônia primária

Esse tipo de insônia é caracterizada pelo fato de que uma causa específica não pode ser atribuída com certeza; no entanto, acredita-se que o estresse possa ser um gatilho. Em muitos casos, ela surge na infância e pode prolongar-se ao longo da vida, aumentando com a idade.

Os sintomas que os indivíduos apresentam serão: fadiga, cansaço, dores de cabeça, tensão muscular e desconforto gástrico. A razão pela qual esse tipo de insônia se prolonga é porque a pessoa está constantemente preocupada com a sua condição, com o fato de que ela terá dificuldade em adormecer à noite.

Fadiga, cansaço, sono.

Portanto, durante o dia se desenvolve um estado de ansiedade e tensão que provoca o distúrbios do sono à noite. Esse problema também pode causar a hipersonia diurna.

Hipersonia

A hipersonia é caracterizada pela sonolência excessiva, que pode ser noturna (maior ou igual a 10 horas) ou diurna (cochilos frequentes que podem durar mais de 1 hora). Geralmente ela começa por volta dos 15 a 35 anos de idade e tende a se tornar crônica.

Para que esse episódio seja considerado um transtorno, ele deve ocorrer por pelo menos 1 mês. Além disso, não deve estar associado a outro distúrbio médico ou aos efeitos de alguma substância. Além disso, a narcolepsia deve ser descartada.

Os pacientes que sofrem desse distúrbio podem adormecer durante o dia, mas seu sono não será reparador. Os sintomas serão baixo nível de alerta, desempenho e concentração. Isso pode repercutir no ambiente de trabalho e social da pessoa, além de poder provocar acidentes ou grandes distrações, devido à falta de atenção e concentração.

Narcolepsia

A narcolepsia é uma síndrome de origem desconhecida, caracterizada por ataques de sono anormais. Ela costuma começar na adolescência, mas se consolida por volta dos 25 anos. A narcolepsia é composta por quatro sintomas que formam a tétrade narcoléptica. Sendo a sonolência o sintoma mais frequente.

Narcolepsia, trabalho, fadiga, sono.

  1. Sonolência diurna excessiva: os pacientes apresentam ataques agudos de sono durante circunstâncias que podem ser consideradas estimulantes. Esse episódio dura entre 10 e 15 minutos e geralmente há um período refratário de várias horas antes do próximo episódio.
  2. Cataplexia: é uma alteração da psicomotricidade devida à entrada repentina na fase REM. O que a pessoa experimenta é uma diminuição repentina do tônus muscular, estando totalmente consciente disso. Geralmente é desencadeada por emoções intensas como riso, choro ou raiva. Normalmente ela dura poucos segundos. Esses episódios começarão anos após o início da sonolência diurna.
  3. Paralisia do sono: é um estado semelhante à cataplexia. O paciente está consciente, mas é incapaz de se mover, falar ou respirar naturalmente. A diferença é ela que não é causada por gatilhos emocionais. A sua duração não ultrapassará alguns minutos, podendo acabar mais cedo em resposta a estímulos externos.
  4. Alucinações hipnagógicas: episódios alucinógenos são pseudopercepções de caráter auditivo ou visual. Geralmente elas não aparecem até a adolescência e tendem a diminuir com o tempo. Há casos em que paralisia e alucinações ocorrem simultaneamente, tornando este um acontecimento aterrorizante para o paciente.

Distúrbios do sono relacionados à respiração

A síndrome da apnéia do sono é uma alteração respiratória caracterizada pela interrupção repetitiva (por mais de 10 segundos) do fluxo de ar naso-bucal durante o sono. A partir de estudos polissonográficos, três tipos de apneias podem ser distinguidos: obstrutiva, central e mista.

Apneia obstrutiva do sono

Consiste na interrupção do fluxo de ar, que se reinicia de repente. Esta é a apnéia mais comum. Durante o sono, os músculos relaxam e as vias aéreas se estreitam, de modo que a respiração se torna insuficiente por 10 a 20 segundos.

Insônia, cama, dormir, noite.

O cérebro detecta a anormalidade e desperta a pessoa. O sinal mais característico será o ronco, pois as paredes da garganta se contraem.

Como a parada respiratória ocorrerá ao longo da noite, a pessoa não conseguirá entrar nas fases III e IV do sono, tornando o sono não restaurador. Além disso, não haverá uma troca adequada de gases, ocasionando diferentes graus de hipoxemia e hipercapnia noturna.

Apneia central do sono

Consiste na interrupção parcial do ritmo respiratório, porque os neurônios eferentes do cérebro impedem os músculos que controlam a respiração de atuar corretamente. Isso só acontecerá nos casos em que houver lesão no Sistema Nervoso Central (SNC).

Apneia mista do sono

Será a combinação das duas apneias mencionadas acima. Às vezes, o sistema respiratório fica paralisado e, outras vezes, ocorre uma obstrução das vias aéreas.

Distúrbios no ritmo circadiano

Eles são distúrbios do sono causados por uma desorganização da vigília e do sono. Ou seja, a pessoa dorme a quantidade de horas necessária, mas os horários de sono estão alterados. Os humanos são governados por ritmos circadianos, que estão ligados à temperatura, genética e exposição à luz.

Ritmos circadianos, melatonina, cortisol.

Além disso, o corpo possui um hormônio chamado melatonina, que é liberado durante a noite e que induz o sono. Todos esses elementos causarão os padrões através dos quais a pessoa acorda e adormece. Dentro deste grupo, encontramos os seguintes distúrbios:

  • Tipo de fases do sono atrasadas: surgem de um atraso na hora de dormir (mais de 2 horas).
  • Tipo de fases avançadas do sono: os biomarcadores circadianos foram programados 2 a 4 horas mais cedo do que o normal, pois a pessoa se acostumou a acordar cedo.
  • Associado a turnos de trabalho: acontece com pessoas que têm horários de trabalho atípicos. Por exemplo, em uma semana elas trabalham à noite e na outra trabalham durante a manhã. Isso interfere na manutenção de uma programação normal de sono-vigília.

Parassonias

Parassonias são anormalidades que ocorrem nas fases REM e NÃO REM do sono.

Pesadelos

Pesadelos são episódios que ocorrem durante o sono REM. De fato, eles têm a ver com o conteúdo do sonho, que pode ser aterrorizante, angustiante ou ameaçador.

A ansiedade pode provocar uma reação motora que desperte o indivíduo. No entanto, a ansiedade se dissipará quando ele reconhecer que estava apenas sonhando e que a situação não é real.

Pesadelo, medo, criança.

Os pesadelos podem ocorrer independentemente da idade, embora eles sejam mais comuns em crianças. Sua etiologia não é conhecida com exatidão, mas existem teorias que consideram que eles têm um significado importante para a pessoa.

Terror noturno

O terror noturno geralmente ocorre nos estágios III ou IV do sono, ou seja, durante o sono mais profundo. Eles começam com um grito de partir o coração no meio da noite.

Geralmente, a pessoa acorda com uma sensação difusa de angústia, sem saber exatamente o que aconteceu e sem conseguir se lembrar de nada. Acredita-se que sua etiologia esteja relacionada ao estresse emocional e fadiga.

Sonambulismo

O sonambulismo é caracterizado por uma sequência de movimentos corporais que a pessoa realiza durante o sono de ondas lentas. Ela pode se levantar e realizar várias atividades, como andar pela casa ou mover coisas.

Sonambulismo, parassonia.

Ela também pode articular algumas palavras. Durante este estado, a pessoa não reage aos estímulos ambientais. A sua duração pode ser de 1 a 30 minutos e pode ocorrer várias vezes por semana ao longo da vida. Sua causa permanece desconhecida, mas alguns pesquisadores a associam ao estresse.

Conclusões sobre a insônia e outros distúrbios do sono

Concluindo, neste artigo vimos o que é o sono, qual a sua importância e principais características. Por outro lado, vimos quais são as consequências da privação do sono ou insônia. Da mesma forma, vimos os distúrbios do sono mais comuns relacionados à insônia.

Se você sofre de algum desses sintomas, recomendamos buscar um médico ou psicólogo para tratar a insônia ou outros distúrbios do sono. Hoje existem excelentes terapias psicológicas e farmacológicas que, cada vez mais, oferecem melhores resultados.

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