O otimismo de acordo com a ciência

Daniela Andarcia · 29 março, 2021
Ser otimista pode prolongar a sua vida, reduzir os níveis de estresse e melhorar a sua saúde emocional. Vamos mostrar em detalhes como o pensamento positivo pode influenciar a sua vida.

A mentalidade otimista, assim como o outro lado da mesma moeda, o pensamento pessimista ou derrotista, podem ter um impacto significativo na saúde física e mental. O American Journal of Epidemiology publicou um estudo que mostrou que as mulheres com tendência otimista tinham um risco menor de morrer de várias doenças.

Esperar resultados positivos no futuro, mas sem esperar por algo mágico que faça os problemas desaparecerem, é algo que está associado a tornar as dificuldades mais suportáveis e a lidar com os problemas de forma mais produtiva.

Existe uma ligação entre o otimismo e a boa saúde… Descubra mais sobre o otimismo a partir da perspectiva da ciência!

O impacto do otimismo na saúde

Algumas das vantagens que o otimismo pode ter são as seguintes:

Maior longevidade

O otimismo pode aumentar a expectativa de vida.
A expectativa e a qualidade de vida podem melhorar consideravelmente com uma atitude otimista.

Uma compilação de estudos publicada nos Proceedings of the National Academy of Sciences acompanhou 69.744 mulheres por mais de 10 anos e 1.429 homens durante mais de 30 anos, a fim de encontrar a relação entre otimismo e uma vida mais longa.

A equipe de pesquisadores descobriu que mulheres e homens com níveis mais altos de otimismo viveram em média de 11 a 15% mais do que aqueles com níveis mais baixos de otimismo.

Além disso, também foi revelado que mulheres e homens com maior otimismo tinham 50% e 70% mais chances de completar 85 anos.

Muitas são as possíveis razões para isso, mas os pesquisadores acreditam que a mais plausível é que as pessoas otimistas tendem a apresentar comportamentos que promovem a saúde, como, por exemplo, fazer mais atividades ao ar livre, e geralmente também têm menos vícios, como o de fumar.

Outro motivo que pode estar associado é o fato de que os otimistas têm uma maior capacidade de regular as suas emoções de maneira eficaz. Assim, eles podem se recuperar mais facilmente de situações estressantes.

Ter um melhor estado de saúde

Acredita-se que o otimismo faça com que as pessoas se tornem mais conscientes sobre a sua saúde, levando-as a se informarem mais sobre o assunto.

Uma pesquisa realizada pelo Personality and Social Psychology Bulletin revelou que os otimistas se preocupavam em se educar sobre como e por que os ataques cardíacos ocorrem, quais são os fatores de risco do estresse e até mesmo as condições causadas pelo consumo de álcool.

As pessoas otimistas não se preocupam apenas em ser informadas sobre temas relevantes para a saúde. O mesmo estudo constatou que essas pessoas geralmente se exercitavam mais, optavam por alimentos mais balanceados (ricos em proteínas e minerais) e, além disso, tinham um sono de melhor qualidade.

Encontrar métodos mais eficazes

Ser otimista não deixa ninguém livre de enfrentar tribulações, doenças crônicas ou acidentes. No entanto, a forma de pensar faz diferença para o enfrentamento dessas situações.

Um estudo publicado em Personality and Social Psychology Review revelou que o otimismo promove o uso de estratégias mais assertivas para enfrentar um problema ou reduzir a sua gravidade.

A mente de um otimista parece estar mais focada em buscar, entender e ter opções para resolver o problema e, a partir de então, escolher a estratégia mais adequada, o que permite ter um maior senso de controle e propriedade diante de uma circunstância difícil.

Contar com mais apoio diante de situações adversas

Uma pesquisa publicada no Journal of Personality and Social Psychology sugere que os otimistas geralmente têm relações mais sólidas e estão menos envolvidos em interações sociais negativas.

Além disso, eles também têm maior capacidade para manter amizades a longo prazo e, portanto, diante de situações adversas, recebem e contam com mais apoio em comparação com as relações sociais de uma pessoa pessimista.

Isso pode ocorrer porque as pessoas preferem se solidarizar mais com aqueles que têm pensamentos positivos do que com pessoas que mantêm pensamentos negativos recorrentes.

Porém, ainda que uma pessoa otimista esteja diante de uma circunstância na qual ela não recebe o apoio adequado, o pensamento positivo fará com que ela acredite que se sente satisfeita com as suas relações sociais e com o apoio que poderia ter recebido, mesmo que, na verdade, isso possa não ter sido favorável.

Maior sucesso e persistência

O desempenho pode estar associado ao pensamento otimista. Um estudo com atletas descobriu que aqueles que foram levados a acreditar que tiveram um desempenho ruim nos recordes que já possuíam eram mais propensos a diminuir o desempenho no futuro, em comparação com equipes que foram encorajadas a ter um pensamento otimista.

A crença e a confiança de conseguir atingir um objetivo permitem ao indivíduo, através do pensamento positivo, superar as dificuldades, obstáculos, desafios ou tropeços com maior sucesso, tornando-se assim uma pessoa persistente e resiliente.

Melhor saúde emocional

Uma pesquisa publicada em Psychiatric Clinics of North America descobriu que repensar ou mudar a perspectiva de pensamento de uma pessoa por meio da terapia cognitiva pode ser tão eficaz quanto usar medicamentos antidepressivos. Além disso, também se sugere que a terapia cognitiva é mais eficaz a longo prazo.

As pessoas que se submetem a esse tipo de terapia geralmente têm um maior controle das suas emoções e dos contratempos que possam surgir no futuro. Portanto, o otimismo poderia não apenas melhorar, mas também manter uma boa saúde emocional.

Algumas dicas para praticar a reestruturação cognitiva são as seguintes:

  • Reserve algum tempo para identificar qual é a situação que está gerando pensamentos ou estados de humor negativos.
  • Avalie os sentimentos que estão surgindo.
  • Permita que os pensamentos fluam e identifique os pensamentos negativos que estão respondendo à situação.
  • Retire os argumentos que evidenciam, apoiam ou refutam os pensamentos negativos.
  • Pense em um objetivo ou meta realista que resolva a sua situação e substitua os pensamentos negativos pelo novo projeto.

Melhor gerenciamento do estresse

Muito estresse na vida? Você precisa aumentar o otimismo.
As pessoas que sofrem de estresse constante podem ver melhoras nos seus sintomas por meio de uma atitude otimista e técnicas de relaxamento.

Ao comparar as pessoas pessimistas com as otimistas, estas últimas apresentam um melhor gerenciamento do estresse.

Um dos motivos é que o otimismo permite que o indivíduo desenvolva uma maior autoconfiança. Também existe a crença de que ele pode lidar com os contratempos e que há mais eventos positivos por vir do que negativos.

Além disso, essas pessoas tendem a reduzir ou eliminar os fatores estressantes e as consequências emocionais.

Menor comprometimento cognitivo

Ter um parceiro otimista pode trazer muitos benefícios para a saúde. Entre eles, destaca-se a diminuição do declínio cognitivo, conforme afirma um estudo realizado pelo Journal of Personality.

Esta pesquisa consistiu em acompanhar 4.457 casais heterossexuais durante 8 anos. Então, concluiu-se que o otimismo, tanto em nível individual quanto de casal, está positivamente associado ao funcionamento cognitivo. Desta forma, ele permite que os adultos tenham um menor declínio e conservem uma maior função cognitiva conforme envelhecem.

Acredita-se que, por ter um parceiro otimista, serão realizadas mais atividades que beneficiam a saúde geral. Mais passeios ao ar livre, uma boa rotina de exercícios e uma boa alimentação reduzem os fatores associados ao declínio cognitivo.

Perigos potenciais do otimismo

O otimismo geralmente está associado a aspectos positivos que contribuem de forma benéfica para a saúde física e mental. No entanto, ele também tem as suas desvantagens. Por exemplo:

  • Viés otimista: a tendência ao otimismo excessivo pode levar à supervalorização das experiências positivas em detrimento da possibilidade do surgimento de experiências negativas. Subestimar que coisas ruins podem acontecer pode invalidar o planejamento correto da realidade.
  • Avaliação de risco insuficiente: o otimismo excessivo pode ofuscar a realidade, impossibilitando a mitigação de possíveis riscos em algumas tomadas de decisão. Diante dessa circunstância, há uma maior propensão ao fracasso ou, pelo menos, a não perceber que ele pode acontecer.
  • Positividade tóxica: reprimir os sentimentos negativos totalmente nem sempre é uma opção viável. Tenha cuidado para que os pensamentos positivos não te impeçam de reconhecer as dificuldades da situação. Permanecer positivo e ignorar outras emoções pode não ser benéfico para a sua saúde.

Um comportamento com múltiplos benefícios

O otimismo pode ser entendido como um modo de vida favorável em muitos aspectos. O grau em que ele é expresso por uma pessoa geralmente é consequência de vários fatores ambientais (incluindo experiências anteriores) e genéticos, mas, de qualquer forma, esse comportamento pode ser modulado e adquirido. A terapia mental, neste último caso, pode ser útil.

  • Kim, E. S., Hagan, K. A., Grodstein, F., DeMeo, D. L., De Vivo, I., & Kubzansky, L. D. (2017). Optimism and Cause-Specific Mortality: A Prospective Cohort Study. American journal of epidemiology, 185(1), 21–29. https://doi.org/10.1093/aje/kww182
  • Lee, L. O., James, P., Zevon, E. S., Kim, E. S., Trudel-Fitzgerald, C., Spiro, A., 3rd, Grodstein, F., & Kubzansky, L. D. (2019). Optimism is associated with exceptional longevity in 2 epidemiologic cohorts of men and women. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 116(37), 18357–18362. https://doi.org/10.1073/pnas.1900712116
  • Radcliffe, N. M., & Klein, W. M. P. (2002). Dispositional, Unrealistic, and Comparative Optimism: Differential Relations with the Knowledge and Processing of Risk Information and Beliefs about Personal Risk. Personality and Social Psychology Bulletin, 28(6), 836–846. https://doi.org/10.1177/0146167202289012
  • Nes, L. S., & Segerstrom, S. C. (2006). Dispositional Optimism and Coping: A Meta-Analytic Review. Personality and Social Psychology Review, 10(3), 235–251. https://doi.org/10.1207/s15327957pspr1003_3
  • Brissette, I., Scheier, M. F., & Carver, C. S. (2002). The role of optimism in social network development, coping, and psychological adjustment during a life transition. Journal of personality and social psychology, 82(1), 102–111. https://doi.org/10.1037//0022-3514.82.1.102
  • Stanula, A., Maszczyk, A., Roczniok, R., Pietraszewski, P., Ostrowski, A., Zając, A., & Strzała, M. (2012). The development and prediction of athletic performance in freestyle swimming. Journal of human kinetics, 32, 97–107. https://doi.org/10.2478/v10078-012-0027-3
  • Driessen, E., & Hollon, S. D. (2010). Cognitive behavioral therapy for mood disorders: efficacy, moderators and mediators. The Psychiatric clinics of North America, 33(3), 537–555. https://doi.org/10.1016/j.psc.2010.04.005
  • Conversano, C., Rotondo, A., Lensi, E., Della Vista, O., Arpone, F., & Reda, M. A. (2010). Optimism and its impact on mental and physical well-being. Clinical practice and epidemiology in mental health : CP & EMH, 6, 25–29. https://doi.org/10.2174/1745017901006010025
  • Oh, J., Chopik, W. J., Kim, E. S. (2020). The association between actor/partner optimism and cognitive functioning among older couples. Journal of Personality, 88, 822– 832. https://doi.org/10.1111/jopy.12529