Transtornos de atenção: principais características

Os transtornos de atenção envolvem uma deterioração, diminuição ou alteração desta função cognitiva. Neste artigo conheceremos os distúrbios mais frequentes e em que condições ou distúrbios eles aparecem.
Transtornos de atenção: principais características
Laura Ruiz Mitjana

Escrito e verificado por la psicóloga Laura Ruiz Mitjana em 04 Julho, 2021.

Última atualização: 04 Julho, 2021

A atenção é uma função cognitiva que nos permite responder aos diferentes estímulos do ambiente por um certo tempo (atenção sustentada), além de selecionar as informações que nos interessam e ignorar as que não. Mas a atenção pode ser aumentada ou diminuída; quando isso acontece, estamos falando dos distúrbios de atenção.

Neste artigo saberemos quais transtornos de atenção existem de acordo com dois critérios: quantitativo (ter mais ou menos atenção) e qualitativo (quando a atenção é alterada por diferentes motivos). Além disso, saberemos em quais distúrbios ou condições psicológicas esses transtornos aparecem com mais frequência.

O que é a atenção?

A atenção é uma função cognitiva; é um processo comportamental e cognitivo de concentração seletiva em um aspecto discreto da informação, enquanto ignora outros aspectos perceptíveis. Porém, não existe um único tipo de atenção, mas vários delas (atenção sustentada, atenção seletiva, atenção dividida…).

Atenção e consciência

A atenção foi definida por Bleuler como ‘uma manifestação da afetividade, impressões ou ideias que despertam interesse sendo fortalecidas, e todas as outras sendo inibidas’. Além disso, a relação entre atenção e consciência é muito estreita, uma vez que atenção envolve a capacidade de manter e focar o campo da consciência em determinados objetos.

A história dos transtornos de atenção

Os transtornos de atenção têm uma longa história.
Os transtornos de atenção têm sido estudados há décadas. Hoje, as teorias continuam a mudar à medida em que surgem novas evidências.

Classicamente, os transtornos de atenção têm sido chamados de hipoprosexias e aprosexias, para se referir respectivamente à diminuição da capacidade atencional ou abolição praticamente completa (falta de atenção).

Baños e Belloch (1995), citados no Manual of Psychopathology do CEDE (2018), descrevem os pressupostos básicos das abordagens clássicas da atenção.

Eles incluem a identificação da atenção e concentração, além de considerar o estado de alerta e clareza de consciência como pré-requisito para o funcionamento adequado da atenção, e a assimilação do estado de alerta e concentração à vigília.

Segundo esses autores, essas suposições tornam a psicopatologia da atenção extremamente simplificada. Portanto, vários aspectos ou propriedades da atenção são deixados de fora, focalizando apenas na faculdade da atenção como concentração ou, na melhor das hipóteses, acrescentando a propriedade da atenção sustentada.

Assim, os únicos transtornos de atenção que podem ser concebidos a partir dessas suposições envolvem variações quantitativas no grau do foco da atenção em um estímulo ou tarefa; ter pouca ou nehuma atenção, concentrar-se em poucas coisas ou variar constantemente o objeto da atenção.

Tudo isso pode ser concebido em hipo ou hiperconcentração, ou seja, os extremos do continuum da concentração dariam origem aos mesmos efeitos.

Transtornos de atenção

Os transtornos de atenção envolvem uma redução ou alteração na mesma. A seguir, descreveremos os transtornos incluídos nas categorias clássicas de transtornos da atenção, bem como as chamadas pseudoaprosexias, paraprosexias e hiperprosexias.

Também vamos falar sobre em quais transtornos psicológicos (ou de outros tipos) são típicos de cada um desses transtornos de atenção, de acordo com os dados de Higueras et al. (1996), citado no Manual do CEDE já citado.

Por fim, falaremos sobre alguns dos transtornos propostos a partir da psicopatologia cognitiva, segundo a divisão proposta por Reed (1988) (citado no Manual do CEDE), e que são melhor discutidos na proposta citada por Baños e Belloch.

Aprosexias

Um dos transtornos da atenção é a aprosexia (aprosexias). Esses distúrbios envolvem a redução máxima da capacidade de atenção (ou seja, a pessoa é incapaz de responder a qualquer estímulo).

Eles podem ser vistos em situações de agitação e estupor. Nesses casos, a atenção pode ser impossível de manter.

Hipoprosexias

Esta categoria de transtornos de atenção inclui uma ampla variação de distúrbios, dependendo do grau de comprometimento da capacidade atencional ou atentiva. Vamos conhecer os tipos a seguir:

Distratibilidade

A distratibilidade implica em mudanças repentinas na atenção e na instabilidade acentuada da mesma. A atenção é focada, por um curto período de tempo e em múltiplos estímulos. A distração é típica do TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade), estado crepuscular e estados maníacos (por exemplo, transtorno bipolar).

Labilidade emocional

A labilidade emocional implica na inconstância e oscilação do desempenho atencional. Surge principalmente em situações de alto nível de estresse ou ansiedade.

Inibição de atenção

A inibição da atenção é definida como ‘a incapacidade de manter a atenção’. Assim, existe um certo grau de atenção, mas ela é insuficiente. É típica da depressão e esquizofrenia.

Negligência

A síndrome da negligência é definida pela presença de desatenção, acinesia e negligência hemiespacial. Em pessoas com lesões focais no hemisfério cerebral não dominante, surge o que se denomina desatenção unilateral, caracterizada pela tendência em ignorar metade do espaço extrapessoal.

Ela se manifesta em tarefas que exigem uma percepção simétrica do espaço, como escrever ou desenhar.

Fadiga por atenção direcionada

A fadiga por atenção direcionada é definida como ‘um esgotamento fácil da atenção, que é secundário a fatores de comprometimento do cérebro’. Ela aparece em pessoas com tumores cerebrais, demência ou neurastenia pós-traumática.

Apatia

A apatia é considerada outro dos distúrbios da atenção, e é definida como a ‘dificuldade em manter a atenção a certos estímulos’. É típica de estados astênico-apáticos, depressão e distúrbios graves de personalidade.

Perplexidade de atenção

Nesse caso, a psicopatologia clássica da atenção (descrita no início do artigo) considera a perplexidade da atenção como uma alteração qualitativa da mesma (e não como uma alteração quantitativa, que vai de menor a maior). Nesse estado, diz-se que a pessoa não alcança a síntese do conteúdo da atenção.

É um fenômeno um pouco complexo e implica que a pessoa “não consegue apreender o significado concreto dos fenômenos e de suas relações efetivas, de modo que não consegue compreender as ações e as circunstâncias que a cercam”.

Pseudoaprosexias, paraprosexias e hiperprosexias

Transtornos de atenção requerem um diagnóstico clínico.
Uma minoria de pessoas pode desenvolver transtornos de atenção de difícil diagnóstico, como as pseudoaprosexias.

Em outra categoria de transtornos da atenção encontramos pseudoaprosexias, paraprosexias e hiperprosexias. Mas o que é cada um destes fenômenos?

  • Pseudoaprosexias: são situações que parecem ser aprosexia (falta de atenção), mas em que a atenção é preservada e especialmente direcionada para as reações do ambiente.
  • Paraprosexias: implicam em um direcionamento anormal de atenção. Elas são típicos da hipocondria, por exemplo, onde a atenção está voltada para os sintomas.
  • Hiperprosexias: são focalizações excessivas ou transitórias da atenção. Por exemplo, em um estado hiperlúcido (transe).

Psicopatologia cognitiva da atenção

A partir do modelo cognitivo no estudo da psicopatologia, a perspectiva é um pouco diferente da que foi mencionada até agora, uma vez que o objetivo é o estudo do funcionamento de processos de conhecimento anormais (tanto em situações naturais quanto artificiais).

De acordo com abordagens mais próximas da pesquisa psicológica sobre a atenção, Reed (1988) divide esses transtornos de acordo com o aspecto da atenção com o qual eles mais se relacionam.

Atenção como concentração

Esta seção inclui alterações relacionadas à fixação da atenção em estímulos, presentes em muitos transtornos e condições psiquiátricas como fadiga extrema, necessidade de dormir, estados de desnutrição, etc. Dentro deste grupo, encontramos dois transtornos de atenção:

  • Ausência mental: ocorre quando o indivíduo está tão preocupado com seus próprios pensamentos que exclui informações externas que normalmente lhe são acessíveis e, portanto, não responde ao feedback externo sobre as mudanças em seus hábitos.
  • Lacuna temporal: ocorre quando uma pessoa “não se lembra” de uma sequência de comportamentos que ocorreram.

Atenção como seleção

Atenção seletiva é a capacidade da atenção de separar os estímulos relevantes dos irrelevantes, com base na capacidade limitada de atenção. Dentro desta categoria, Reed destaca o fenômeno do “tuning in, que está relacionado à habilidade de seguir uma fonte de informação quando muitas outras competem ao mesmo tempo para chamar a atenção.

Quando há uma alteração nesta função, as pessoas não conseguem fixar sua atenção. Ela aparece em transtornos como episódios maníacos, transtornos de ansiedade, sintomas crepusculares ou esquizofrenia.

Atenção como ativação

Nesta categoria encontramos o distúrbio atencional da “visão em túnel”. Ela aparece em situações altamente estressantes; A nível de atenção, o foco é extremo e restrito.

Assim, a ativação pelo organismo produz um estreitamento do foco de atenção seletiva, havendo uma tendência em abandonar a informação periférica (detalhes) em favor da informação central, provocando essa “visão em túnel”.

Atenção como vigilância

Este termo descreve um estado de alta receptividade ou sensibilidade à estímulos ambientais, bem como um tipo de dedicação da atenção definida por determinadas tarefas.

Déficits da atenção como vigilância, aparecem em pessoas com esquizofrenia, em pessoas com transtorno de ansiedade generalizada (TAG) ou em indivíduos normais com valores elevados de ansiedade típica.

Atenção como expectativa/ “set”/ou antecipação

Finalmente, encontramos a atenção como expectativa. Com base no nosso conhecimento e em nossas experiências anteriores, antecipamos certos resultados do ambiente. Mas em pessoas com esquizofrenia, por exemplo, elas não se beneficiam de sinais preparatórios em tarefas cognitivas.

Por quê? Porque elas não conseguem manter o estado de predisposição para responder de forma rápida e adequada ao estímulo cujo aparecimento é previamente informado.

A psicopatologia da atenção abrange diferentes transtornos relacionados a ela. Aqui, nós os discutimos de um ponto de vista quantitativo (entendendo a atenção como um continuum com diferentes graus) e qualitativo. Como vimos, existem certos transtornos que são mais típicos de alguns distúrbios que de outros.

No entanto, cada um de nós pode sofrer de um distúrbio desse tipo em algum momento da vida, tendo ou não um distúrbio psicológico. Felizmente, esses processos geralmente são reversíveis e, além disso, a atenção pode ser treinada e melhorada com o tempo (até certo ponto).

“Na vida, as coisas em que colocamos a nossa atenção crescem.”

-John Gray-

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