Diferenças entre antígenos e anticorpos

Os termos "antígeno" e "anticorpo" estão intimamente relacionados, mas não podem ser confundidos entre si. Mostraremos a seguir como eles se diferenciam.
Diferenças entre antígenos e anticorpos
Samuel Antonio Sánchez Amador

Escrito e verificado por el biólogo Samuel Antonio Sánchez Amador em 12 Setembro, 2021.

Última atualização: 12 Setembro, 2021

O sistema imunológico humano é essencial para a sobrevivência, pois existem milhares de vírus e bactérias que tentam colonizar nosso organismo todos os dias com o objetivo de proliferar de forma ilimitada. Conhecer as barreiras biológicas que nos definem como espécie é essencial para explicar os quadros patológicos, e esse conhecimento envolve o entendimento das diferenças entre antígenos e anticorpos.

Embora esses termos sejam complementares, as palavras antígeno e anticorpo se referem a compostos muito diferentes. Ambos explicam parte da resposta imunológica dos humanos, mas um está do lado do patógeno e o outro do hospedeiro. Se você quiser saber mais sobre este tópico, te convidamos a continuar lendo.

Generalidades sobre o sistema imunológico

Antes de entrarmos totalmente nas diferenças entre antígeno e anticorpo, consideramos relevante fazer um breve tour pelas defesas humanas. Em primeiro lugar, cabe destacar que o Instituto Nacional do Câncer (NIH) dos Estados Unidos define o sistema imunológico como “o conjunto de células, tecidos, órgãos e substâncias que ajudam o corpo a combater infecções e outras doenças”.

Postula-se que esse conjunto de redes de tecidos existe como resposta a agressores exógenos e endógenos. Vírus, bactérias, protozoários, helmintos e fungos colonizam as superfícies internas ou externas do ser humano, mas eles sempre são provenientes do meio ambiente. Por outro lado, a mutação celular que deriva em um câncer é endógena, pois sua origem está no próprio genoma do indivíduo.

A nível geral, o sistema imunológico é classificado como inato e adquirido. O primeiro possui uma série de corpos celulares que respondem de forma inespecífica a infecções (fagócitos, macrófagos, neutrófilos e células dendríticas), enquanto o adquirido reconhece um elemento estranho específico: o antígeno. Os linfócitos são os corpos celulares típicos da resposta adquirida.

Imunidade inata e adquirida: duas faces da mesma moeda

Atualmente é reconhecido que a visão “determinista” desse tecido biológico complexo não é inteiramente correta. Conforme indicado pelo portal médico Elsevier, as respostas inatas e adquiridas se complementam da seguinte forma:

  1. O sistema imunológico inato ativa o adquirido como resposta às infecções. Por exemplo, os macrófagos respondem de forma inespecífica, mas apresentam os antígenos aos linfócitos para que estes atuem através de mecanismos especializados. Este processo é conhecido como apresentação de antígeno.
  2. O sistema imunológico adquirido utiliza os mecanismos da imunidade inata para eliminar os microrganismos patogênicos.

Assim, pode-se garantir que os dois sistemas são complementares e se ajudam. Já introduzimos brevemente o termo “antígeno”, de forma que estamos prontos para diferenciá-lo do anticorpo nas linhas a seguir.

Quais são as diferenças entre antígenos e anticorpos?

Em primeiro lugar, cabe destacar que tanto os antígenos quanto os anticorpos são compostos biológicos, ou seja, estão presentes nos seres vivos. As diferenças entre eles estão no papel que cada um desempenha na reação imunológica, conforme veremos a seguir. Analisaremos as disparidades entre esses dois termos de forma separada.

1. O antígeno pertence ao patógeno e o anticorpo ao sistema imunológico

As diferenças entre antígenos e anticorpos são múltiplas, embora os dois termos estejam relacionados ao funcionamento do sistema imunológico.
Microrganismos patogênicos como bactérias apresentam estruturas minúsculas, que são reconhecidas como estranhas pelo sistema imunológico. Esses corpos estranhos são conhecidos como antígenos.

A Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos define antígeno como ‘qualquer substância que provoca a síntese de anticorpos pelo sistema imunológico do hospedeiro’. Em outras palavras, trata-se de uma molécula presente no organismo patógeno (geralmente em sua capa) que é reconhecida pelas células do sistema imunológico, promovendo uma resposta de defesa.

Por outro lado, a mesma fonte define o anticorpo como ‘uma proteína produzida pelo sistema imunológico do hospedeiro quando este detecta substâncias nocivas (antígenos)’. Cada anticorpo, também chamado de imunoglobulina, reconhece uma única molécula do patógeno que entrou no organismo.

Assim, podemos simplesmente dizer que o antígeno é a “fechadura” fornecida pela ameaça, enquanto o anticorpo é a “chave” do hospedeiro que abre a porta para uma resposta imune eficaz. Quando os dois compostos se unem (por um tipo de “conexão” química chamada não covalente), o complexo antígeno-anticorpo é formado.

Às vezes o próprio corpo produz autoantígenos que provocam respostas imunológicas errôneas.

2. A composição não é exatamente a mesma

Como indica a Technology Networks, outra diferença entre antígeno e anticorpo está na composição química. Por um lado, os antígenos são peptídeos (cadeias curtas de aminoácidos), proteínas e polissacarídeos (cadeias de açúcares simples). Alguns lipídios e ácidos nucléicos podem se tornar antígenos, mas apenas se combinados com proteínas ou polissacarídeos.

Por outro lado, os anticorpos são compostos exclusivamente por proteínas, sem outros acréscimos. A seguir veremos a conformação tridimensional dessa molécula, mas por enquanto é suficiente sabermos que cada imunoglobulina contém regiões constantes e variáveis constituídas por cadeias de aminoácidos (a base de todas as proteínas).

Ambos compostos são formados principalmente por proteínas, embora os antígenos permitam uma maior variabilidade química.

3. Os antígenos podem ser ambientais ou internos, mas os anticorpos são sempre internos

Os antígenos podem ser classificados eficientemente de acordo com o seu local de origem. Os exógenos são os que procedem de fontes externas ao organismo do hospedeiro por processos como inalação, ingestão direta, entrada através de feridas ou injeções, entre muitas outras vias. Uma vez dentro do corpo, eles são reconhecidos pelos macrófagos e outros corpos celulares, ocorrendo a apresentados aos linfócitos.

Por outro lado, os antígenos endógenos são os produzidos pelo metabolismo celular ou expressados em uma célula infectada por um vírus ou bactéria. De certa forma, os autoantígenos ou “auto antígenos” poderiam ser incluídos nesta categoria. Conforme indicado pela Clínica Universidad Navarra, estes últimos são compostos que o organismo considera como estranhos quando não deveria.

O reconhecimento de um autoantígeno como uma molécula estranha favorece o aparecimento de doenças autoimunes. Esse é o caso da artrite reumatoide, pois nela os corpos celulares de defesa atacam e destroem o material proteico presente nas articulações, estabelecendo mecanismos inflamatórios crônicos.

Por outro lado os anticorpos são sempre endógenos, pois são produzidos dentro do organismo do hospedeiro em resposta à presença de antígenos. Os anticorpos são sintetizados nos linfócitos B, que por sua vez se desenvolvem a partir das células-tronco hematopoiéticas presentes na medula óssea.

Os únicos anticorpos que vêm “de fora” são os transplacentários, que passam da mãe para o filho durante a gravidez, e aqueles que se acumulam no leite materno durante a amamentação.

4. A estrutura tridimensional é muito diferente

As diferenças entre antígenos e anticorpos incluem a estrutura tridimensional dos mesmos.
Os anticorpos apresentam uma estrutura tridimensional em forma de “Y”, com dois pares de cadeias dispostas em paralelo.

Outra das diferenças entre antígeno e anticorpo é a conformação tridimensional de ambos compostos. Como já dissemos, os antígenos são estruturas com uma natureza proteica altamente variável. De qualquer forma, todos eles apresentam um epítopo, que é uma estrutura reconhecida pelos linfócitos B, anticorpos ou linfócitos T.

A estrutura do anticorpo é muito mais padronizada e possui uma forma típica de “Y”. Apresentaremos cada parte de forma resumida na lista a seguir:

  • Cada anticorpo ou imunoglobulina é composto por 4 cadeias polipeptídicas: 2 pesadas e 2 leves, que são idênticas entre si e conectadas por uma ligação dissulfeto. Por sua vez, uma parte do anticorpo é constante e outra variável.
    • A parte variável muda de um anticorpo para outro, e é a porção que se liga diretamente ao epítopo do antígeno. A composição de aminoácidos depende do alvo do anticorpo referido. Ele é representado pelo final da estrutura em “Y” e contém uma parte das cadeias pesadas e outra das leves.
    • A parte constante é sempre a mesma dentro de cada categoria, e com base nela são determinados os diferentes tipos de anticorpos existentes (IgM, IgG, etc.). Ela representa a base do “Y”, sendo composta apenas por cadeias pesadas.
  • O fragmento de ligação ao antígeno é conhecido como região Fab. O fragmento cristalizável, “cauda do anticorpo” ou “base do Y” é chamado de região FC.

A forma “Y” mencionada é monomérica, mas os anticorpos também se apresentam como dímeros e pentâmeros. Esses termos referem-se ao número de subunidades que os compõem. Como você pode ver, a estrutura do antígeno é muito mais simples que a do anticorpo.

A estrutura típica do anticorpo é em “Y”, sendo os extremos os locais de contato com o antígeno.

5. A tipologia de cada composto é diferente

Existem diferentes tipos de antígenos e de anticorpos, e os critérios usados para classificá-los não são os mesmos. A seguir expandiremos este tópico.

Tipos de antígenos

Os documentos estudantis classificam os antígenos de acordo com a origem da seguinte forma:

  • Bacterianos: é um antígeno infeccioso, pois é transportado por um microrganismo patogênico proveniente do exterior. São polissacarídeos facilmente detectáveis pela técnica de aglutinação com látex.
  • Virais: também é infeccioso e, como o próprio nome indica, são encontrados na superfície ou capa de um vírus.
  • Protozoários e helmínticos: são antígenos que também indicam infecções, mas por parte de seres vivos um pouco mais evoluídos como protozoários, nematoides e platelmintos. Em geral, esses microrganismos tendem a se estabelecer na região intestinal do hospedeiro.
  • Autoantígenos: daqui em diante, os demais antígenos que serão citados não são infecciosos. Como dissemos anteriormente, esses são compostos pertencentes ao próprio organismo, que são erroneamente reconhecidos como estranhos e provocam doenças autoimunes.
  • Alérgenos: os alérgenos são antígenos que desencadeiam uma resposta imune exagerada em pessoas sensíveis após múltiplas exposições. Eles não representam uma ameaça propriamente dita e não indicam um quadro infeccioso, mas o organismo se confunde e interpreta que deve combatê-los.

Tipos de anticorpos

Como você pode ver, os antígenos geralmente são classificados de acordo com seu local de apresentação, uma vez que uma reação causada por um vírus não é igual a uma reação alérgica provocada pela inalação de pólen. Por outro lado, os anticorpos são categorizados com base na cadeia pesada que eles apresentam. Eles são os seguintes:

  • Imunoglobulina A (IgA): esse tipo de anticorpo é predominante nas mucosas que revestem as vias respiratórias e o aparelho digestivo. Ela também é encontrada em altas concentrações na saliva, lágrimas e leite materno.
  • Imunoglobulina G (IgG): conforme indicado pelo portal KidsHealth, esse é o tipo de anticorpo mais abundante no organismo. Nesta variante está a maior parte da ação protetora contra patógenos, que e é a única capaz de atravessar a placenta.
  • IgD: está presente em pequenas quantidades na corrente sanguínea. É de longe o anticorpo menos conhecido.
  • IgM: esse tipo de anticorpo se apresenta na superfície dos linfócitos B ou está livre no sangue, possuindo uma especificidade muito alta. Essa é a primeira variante a sintetizada pelo corpo para combater um agente infeccioso.
  • IgE: essa imunoglobulina está envolvida em processos inflamatórios, principalmente os alérgicos. Ela também é encontrada em altas concentrações quando um parasita infestou o corpo do hospedeiro.

Resumindo essa diferença entre antígeno e anticorpo, pode-se concluir que os antígenos são classificados de acordo com o microrganismo ou composto no qual se encontram, enquanto os anticorpos ou imunoglobulinas (Ig) são caracterizados por suas cadeias pesadas. Cada uma das Ig possui uma série de funções específicas.

Anticorpos e antígenos: dois lados da mesma moeda

Depois desse longo tour, as diferenças entre antígeno e anticorpo se tornam óbvias. Uma ideia que queremos que fique clara é a seguinte: antígenos são compostos presentes na superfície dos patógenos, que às vezes são provenientes de compostos alergênicos ou do próprio corpo humano; já os anticorpos são sempre sintetizados no organismo.

Os antígenos são os agentes que provocam a reação imunológica, enquanto os anticorpos a possibilitam. Ambos termos são dois lados da mesma moeda, pois explicam o complexo sistema imunológico que a nossa espécie possui.

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