Flora vaginal: o que é, funções e como cuidar dela

Daniela Andarcia · 19 maio, 2021
Ter relações sexuais desprotegidas, usar duchas vaginais e estar grávida são fatores que podem alterar o equilíbrio da flora vaginal. A seguir, mostramos tudo o que você precisa saber sobre este microbioma.

A flora bacteriana vaginal é como são chamados os microrganismos que colonizam essa área do corpo. Isso inclui um grupo de bactérias benéficas que criam um microbioma saudável e a mantêm livre de outros organismos que tendem a causar infecções e doenças. Essas bactérias benéficas se desenvolvem em uma microbiota com um pH ideal.

Assim, você deve ter em mente que o pH vaginal, durante os anos reprodutivos, deve oscilar entre 3,8 e 4,5, o que se traduz em uma acidez moderada. Antes da menarca e após a chegada da menopausa, um pH saudável deve ser superior a 4,5, tendendo a ser básico ou alcalino. Saiba mais sobre a flora vaginal e como cuidar dela a seguir.

Funções da microbiota vaginal

A flora vaginal é diversa
Como acontece no intestino, na vagina existem bactérias que desempenham funções benéficas para o organismo.

A microbiota vaginal intervém nos diversos processos fisiológicos que se desenvolvem neste órgão, como por exemplo, auxiliando na integridade e no bom funcionamento do muco ou da parede vaginal.

Por sua vez, mantém afastadas outras bactérias consideradas patógenas, como as que vêm do intestino grosso ou por transmissão sexual. Isso s impede de aderir às membranas mucosas, dizimar sua fonte de alimento ou degradar substâncias estranhas que podem ser prejudiciais, por exemplo.

Da mesma forma, contribui para o desenvolvimento imunológico contra infecções, para a biodisponibilidade de nutrientes para bactérias benéficas que habitam o ecossistema vaginal e para a produção de substâncias antimicrobianas. Dessa forma, a flora vaginal cria uma espécie de barreira protetora que corrige alguns desequilíbrios e mantém a saúde desse órgão.

O que causa o desequilíbrio da flora bacteriana vaginal?

Em condições normais, o ecossistema vaginal está equilibrado, mas existem fatores internos e externos que podem alterar esse estado sem aviso prévio. Mencionamos alguns:

  • Ter relações sexuais desprotegidas. A alcalinidade do sêmen promove o crescimento de alguns tipos de bactérias estranhas à microbiota vaginal.
  • O uso de antibióticos. Esses medicamentos não apenas combatem as infecções bacterianas, mas também inibem o crescimento e o funcionamento adequado das “bactérias boas”, necessárias para manter a vagina saudável.
  • Uso excessivo de duchas vaginais (incluindo perfumes, pó ou sprays). A maioria desses produtos contém vinagre, álcool, bicarbonato de sódio e iodo, substâncias que aumentam os valores do pH vaginal, afetam a acidez e contribuem para o crescimento de bactérias nocivas.
  • A fase do ciclo menstrual. Durante esta fase, a concentração de bactérias boas na flora bacteriana vaginal diminui. Isso pode desencadear o aparecimento de infecções.
  • A chegada da menopausa. O passar dos anos afeta o correto funcionamento da flora vaginal, de modo que as infecções nessa região tendem a ser frequentes.
  • Atividade sexual sob a influência de álcool. Quando se está sob o efeito do álcool, o sexo geralmente fica desprotegido e, em alguns casos, o sêmen poderia prejudicar o equilíbrio da flora.
  • Gravidez. Durante a gravidez, o pH da mulher sofre alterações, razão pela qual durante esta fase a mulher está mais sujeita a infecções.

Outros fatores a serem considerados são o uso de alguns métodos anticoncepcionais, a falta de hábitos de higiene, o uso de absorventes íntimos ou roupas apertadas que não permitam a transpiração quando já existe uma infecção, a ingestão de certos tipos de alimentos ou até mesmo sexo frequente com diferentes parceiros.

Doenças e sintomas que podem surgir quando a flora vaginal é alterada

Doenças vaginais e sua relação com a flora vaginal
Algumas doenças estão associadas a fluxos anormais.

Quando o nível de pH da vagina está alto, ele desencadeia uma série de condições sintomáticas que alertam que algo está errado em sua área íntima. Isso inclui coceira, ardor ao urinar, mau cheiro e secreção de cor incomum. Costumam ser o preâmbulo de doenças mais graves, mas curáveis com tratamento médico.

Vaginose bacteriana (BV)

Ela ocorre devido ao crescimento exponencial do número de bactérias nocivas que habitam naturalmente na vagina. Em uma vagina equilibrada, o número de bactérias boas, geralmente do gênero Lactobacillus, é maior do que o número de bactérias ruins, que possuem metabolismo anaeróbico (ou seja, não requerem oxigênio).

No entanto, quando por alguma razão a presença de anaeróbios aumenta consideravelmente, o equilíbrio natural dos microrganismos na vagina é destruído e dá lugar à vaginose bacteriana.

A presença dessa doença torna a mulher mais vulnerável a contrair o papilomavírus humano (HPV), o vírus herpes simplex (HSV) ou mesmo o vírus da imunodeficiência humana (HIV).

Tricomoníase (trich)

Geralmente essa doença não se desenvolve em uma vagina ácida, uma vez que o germe causador não cresce nesses tipos de ambientes. Além disso, esse parasita é transmitido por meio da troca de fluidos que ocorre durante as relações sexuais.

Embora a maioria das pessoas infectadas com tricomoníase não apresentem sintomas, de acordo com alguns estudos, pode aumentar o risco de contrair outras doenças sexualmente transmissíveis (DST).

Seria capaz de contribuir para a infertilidade

Embora seja verdade que a infertilidade não é uma doença, essa condição afeta muitas mulheres.  Diversos motivos podem ser os causadores, mas uma vagina muito ácida reduz a fertilidade porque os espermatozoides prosperam em um ambiente alcalino.

Portanto, durante a relação sexual, o nível de pH da vagina sobe e a torna mais alcalina, a fim de proteger os espermatozoides durante sua jornada até o óvulo.

Como manter a microbiota vaginal equilibrada?

Prevenir é sempre melhor que remediar. Portanto, recomendamos algumas dicas para manter seu pH vaginal em um nível saudável:

  • Tente usar preservativo sempre que tiver relações sexuais, especialmente se essa pessoa não for um parceiro estável. Dessa forma, você não apenas se protegerá das DSTs, mas também impedirá que o sêmen altere os níveis de pH vaginal.
  • Evite usar duchas vaginais ou qualquer outro produto que possa alterar a microbiota vaginal, principalmente aqueles que contenham perfume. Lembre-se de que uma das características das vaginas é que elas se limpam sozinhas, portanto, você deve lavar a vulva apenas com água.

Caso sinta algum dos sintomas ou doenças citadas, evite a automedicação e procure um especialista; dependendo da sua condição, ele prescreverá um tratamento adequado.

Mantenha a flora vaginal saudável

Ingerir probióticos e ter relações sexuais com preservativos pode ajudar a manter o equilíbrio entre bactérias “boas” e “más” na vagina. Lembre-se de que duchas vaginais muito frequentes não são recomendadas, principalmente se você usar produtos como vinagre ou sabonete com perfume.

Em caso de mau cheiro, coceira ou ardor na área íntima, marque uma consulta com o seu ginecologista de confiança, pois pode ser uma infecção forte que precise de medicação adequada.

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