Sexsomnia, o sonambulismo sexual

A sexsomnia é um distúrbio do sono que pode levar a pessoa a se masturbar excessivamente ou a praticar atos sexuais durante o sono. Ela afeta homens e mulheres.
Sexsomnia, o sonambulismo sexual

Escrito por Aylin Stefany Rodriguez Vinasco, 13 Junho, 2021

Última atualização: 14 Junho, 2021

A sexsomnia, também conhecida como sonambulismo sexual, geralmente ocorre em adultos jovens. É um distúrbio do sono no qual a pessoa pode se masturbar ou até mesmo ter uma relação sexual completa durante o sono.

Estudos que documentaram alguns casos de sexsomnia indicaram que ela pode coexistir com outros distúrbios, como o sonambulismo, caracterizado pela realização de atividades durante o sono, como caminhar ou falar.

Despertar confuso, apnéia do sono ou distúrbio do movimento periódico das pernas são condições que podem desencadear essa condição.

O que é a sexsomnia?

A sexsomnia é um distúrbio complexo.
As pessoas afetadas não podem controlar o que acontece depois de dormir.

Como mencionamos antes, a sexônia é uma parassonia ou uma interrupção anormal do sono de baixa frequência. Aqueles que sofrem dessa codição, geralmente mais homens do que mulheres, podem fazer sexo enquanto dormem. Porém, ao despertar há amnésia completa, eles não se lembram do que aconteceu.

De acordo com um estudo sobre as características da doença, as mulheres desenvolvem uma grande tendência para se masturbar. Revela-se também que a violência e a agressão estiveram presentes em 11 casos e que 73% dos 41 pacientes tinham histórico de sofrer de outro tipo de parassonia.

As complicações dessa condição estão ligadas ao componente sexual mas, no restante, é muito semelhante ao sonambulismo, no qual as pessoas que sofrem podem levantar da cama, andar, falar ou rir. Quando acordam, também não se lembram do que aconteceu.

Diagnosticar esse tipo de transtorno requer um grande esforço por parte da equipe médica, uma vez que deve ser demonstrado que o comportamento se deve a uma ação involuntária e inconsciente. Este comportamento, tendo em conta a carga social que acarreta, costuma ser passível de julgamento, por não se saber que pode ser decorrente de um problema real de saúde.

O que causa o sonambulismo sexual?

Muito provavelmente, você ache que a sexsomnia se deve à presença de sonhos ou fantasias eróticas. A verdade é que esse imaginário está muito longe da realidade de quem a vive.

Por ser um distúrbio do sono, o sonambulismo sexual origina-se de uma falha durante a fase NREM do sono, ou seja, nos primeiros ciclos de repouso profundo, onde ainda existem movimentos conscientes. Em particular, esses pacientes mantêm ativas as áreas que controlam a visão, o movimento e a emoção.

É provável que a razão pela qual não há lembranças do que aconteceu seja porque as áreas encarregadas do controle da memória e do pensamento racional permanecem em sono profundo.

Um estudo que verificou os episódios apresentados por três homens e uma mulher indicam que, embora os três primeiros casos fossem amnésicos, o quarto se lembrou completamente do evento.

Fases do sono

Para entender melhor o que acontece com quem sofre de sexsomnia, é importante saber como funciona o nosso sono e as fases em que ele se divide.

O sono é um estado biológico de inatividade total, onde o estado de consciência diminui; isso ocorre nas fases chamadas REM e NREM, que se alternam progressivamente durante a noite.

Fase NREM ou RNEM

Esta fase do sono é dividida em três estágios específicos:

  • Sonolência ou adormecimento: esta fase leva ao desaparecimento das ondas eletrográficas que são tipicamente vistas no estado de vigília. Ainda existe um bom tônus muscular e os movimentos oculares estão diminuindo progressivamente.
  • Sono leve: durante essa fase os ritmos eletrográficos diminuem mais, mas ainda há um bom tônus muscular. Por sua vez, os movimentos dos olhos estão diminuindo.
  • Sono profundo: esta fase resulta em uma diminuição significativa do ritmo eletrográfico. Já não ocorrem movimentos nos olhos e o tônus muscular começa a diminuir.

Fase REM ou sono paradoxal

Pesquisas descrevem que o sono REM geralmente dura apenas duas horas durante todo o ciclo. Se fosse realizado um eletroencefalograma nessa fase, poderiam ser evidenciados traços que indiquem a atividade cerebral, semelhantes aos que ocorrem no estado de vigília, embora não seja o caso.

Na etapa REM, ocorrem movimentos rápidos dos olhos, o tônus muscular desaparece e o diafragma continua a manter seu tônus, permitindo uma boa respiração. Além disso, essa fase é regulada por uma rede neural na qual diferentes neurotransmissores estão envolvidos.

Causas da sexsomnia

A origem da sexônia é multifatorial.
A ansiedade e outros distúrbios psicológicos podem estar relacionados à sexsomnia.

Como poucas pessoas no mundo sofrem com esse transtorno, ainda é difícil identificar as causas exatas, bem como estabelecer um tratamento específico.

No entanto, um estudo em que foram observados quatro casos específicos de sonambulismo sexual determinou que esse transtorno, além de ocorrer em homens e mulheres adolescentes ou adultos jovens, está intimamente relacionado a comorbidades psiquiátricas. Outras causas que podem estar relacionadas são as seguintes:

  • Ansiedade.
  • Estresse.
  • Fadiga.
  • Insônia.
  • Consumo de álcool.
  • Uso de substâncias psicoativas.
  • Ingestão de algumas drogas.
  • Transtornos mentais.
  • Doenças psíquicas sexuais básicas.
  • Acontecimentos sexuais, como abuso infantil ou estupro.
  • Outros distúrbios, como apneia obstrutiva do sono.

Da mesma forma, acredita-se que o menor ruído possa iniciar um episódio, bem como alterar o ciclo do sono.

Riscos ao sofrer de sexsomnia

Os maiores riscos de sexsomnia para quem a sofre residem no impacto mental e social. Em primeiro lugar, não é nada agradável acordar de manhã nu sem explicação aparente, o que pode ser pior se você acrescentar a isso acordar ao lado de alguém que você não conhece ou com quem não deveria ter relacionamentos desse tipo.

Pessoas com esse transtorno podem não ter conhecimento de sua orientação sexual durante os episódios. Eles podem até mesmo forçar alguém a fazer sexo. Ao permanecer dormindo, os pacientes agem por mero impulso, e podem ser agressivos. Quem se masturba pode chegar a se machucar.

Socialmente falando, é necessário saber diagnosticar com precisão este distúrbio, pois quem o sofre pode estar sujeito a graves problemas jurídicos. Além disso, pessoas que são uma ameaça real podem manipular o sistema com a ajuda de um diagnóstico incorreto.

Diagnóstico e Tratamento

Segundo pesquisas, a sexsomnia é algo relativamente novo, pois apareceu no radar médico em 1996; só em 2003 esse termo foi cunhado e em 2014 foi incluído na Classificação dos Distúrbios do Sono III como uma parassonia.

Como mencionamos, esse distúrbio é raro. A pesquisa mencionada estabelece que ele afeta homens e mulheres, mas a proporção é de de oito para dois. A falta de casos documentados dificulta o diagnóstico e o tratamento.

Esse distúrbio é tão complexo e estranho que, de acordo com um artigo publicado no Journal of Clinical Sleep Medicine, em 2020 apenas 116 casos clínicos de sexsomnia foram registrados.

O diagnóstico pode ser feito por meio de uma polissonografia, um teste frequentemente usado para determinar outros distúrbios do sono, através da leitura da atividade cerebral do paciente e os movimentos dos olhos durante o sono.

Entre os fatores que são levados em consideração para o diagnóstico, também há questionamentos sobre o uso de drogas ou substâncias.

O tratamento inclui duas possibilidades: intervenção farmacológica e terapia psicológica. A isso são acrescentadas orientações de higiene do sono para evitar interrupções durante o ciclo e, dessa forma, minimizar as chances de episódios repetitivos.

Uma patologia complexa

É evidente que essa condição é de difícil diagnóstico, além de estar intimamente relacionada a importantes problemas sociais e emocionais. Uma vez estabelecida a suspeita, é melhor consultar um profissional de saúde mental para receber o diagnóstico adequado.

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