Amnésia infantil: por que não nos lembramos dos nossos primeiros anos?

Amnésia infantil é o termo utilizado para designar o fato de não podermos nos lembrar dos primeiros anos das nossas vidas. Mas por que isso acontece? É verdade que existem pessoas que têm lembranças de quando eram bebês?
Amnésia infantil: por que não nos lembramos dos nossos primeiros anos?
Laura Ruiz Mitjana

Escrito e verificado por la psicóloga Laura Ruiz Mitjana em 25 Abril, 2021.

Última atualização: 25 Abril, 2021

Você já se perguntou por que você não se lembra dos seus primeiros anos de vida? Ou qual é a “primeira” memória que você tem da sua infância ou da sua vida? A amnésia infantil tem a ver com tudo isso.

Esse tipo de amnésia é vivenciado pelos adultos ao tentar evocar lembranças de quando tinham dois ou três anos de idade. Isso é algo difícil de fazer, não é mesmo? Pois há uma explicação para isso (ou mais de uma) e, neste artigo, vamos falar sobre esse assunto.

Amnésia infantil: o que é?

A amnésia infantil é definida como ‘a incapacidade comum em adultos de lembrar dos primeiros anos de sua infância’. Esse tipo de amnésia, em geral, abrange eventos desde o nascimento até os três ou quatro anos de vida.

A idade média das nossas primeiras memórias é de 3 anos e 4 meses. No entanto, há pessoas que conseguem se lembrar de experiências que aconteceram quando eram mais novas.

Estamos falando da memória episódica, aquela envolvida em acontecimentos autobiográficos (experiências vividas, lugares, emoções associadas, variáveis contextuais…), que podem ser evocados de forma explícita.

Não estamos falando de outros tipos de memória, como a memória procedural relacionada ao aprendizado de habilidades, como, por exemplo, andar de bicicleta.

Quando surge a amnésia infantil?

Paradoxalmente ao seu nome, embora sempre tenha sido dito que a amnésia infantil aparece em adultos, conforme afirmado por West et al. (1999) em uma de suas pesquisas, ela pode aparecer muito antes. Assim, algumas pesquisas indicam que, aos sete anos, a pessoa já pode ter consciência de que não se lembra dos seus primeiros anos de vida.

Assim afirmam as pesquisas de Bauer e Larkina realizadas em 2014. Nessas pesquisas, também foi observado que as crianças pequenas podiam até mesmo ter mais memórias, embora elas fossem menos claras e detalhadas.

Em contraste, as maiores foram capazes de evocar fenômenos e eventos de forma mais ampla e clara, apesar de não se lembrarem dos seus primeiros anos de vida.

Por que não nos lembramos dos nossos primeiros anos?

A amnésia infantil não é ruim.
O desenvolvimento do cérebro nesta idade não é adequado para formar memórias bem estruturadas.

Mas por que não nos lembramos dos primeiros anos de vida? Existem diferentes hipóteses que tentaram responder a essa pergunta. Quando somos pequenos, o cérebro se desenvolve muito rápido.

De fato, durante os dois primeiros anos de vida, o cérebro cria tantas novas conexões que este é um momento em que ele tem mais conexões do que em toda a sua vida.

Mas o cérebro precisa ser “podado” para funcionar adequadamente, o que envolve eliminar certas conexões. Nesse processo, durante os primeiros anos de vida, o cérebro perde memórias, lembranças. A linguagem poderia, nestes casos, ajudar a fixar as memórias (mas, como ainda não existe linguagem, isso não é possível).

Outras hipóteses sugerem que não podemos nos lembrar de coisas que envolvem um conceito particular até que possamos entender do que se trata. Como resultado dessa imaturidade cerebral é que surgiria a amnésia infantil. Mas ainda tem mais:

A influência do que sabemos

Nesse sentido, os conceitos que temos claros desde a infância (e aqueles que não temos) também podem influenciar a amnésia infantil. De que maneira?

Vamos dar um exemplo para que possamos compreender melhor: vamos imaginar a lembrança de uma queda de bicicleta, que é fixada desde muito cedo. Conforme afirma Loveday, sabemos que as crianças não incorporam conceitos como o desagrado antes dos 5 anos de idade e que as pessoas não guardam memórias ligadas ao conceito de desagrado até depois dessa idade.

Portanto, esta seria outra explicação possível para a amnésia infantil. Conforme vimos no exemplo e, assim como sugerido pelos especialistas, não podemos codificar uma memória ou uma lembrança antes de termos um conceito linguístico para cada informação. Isso mostra a relação entre memória e linguagem.

Imaturidade do hipocampo

Outra explicação relacionada à amnésia infantil é a imaturidade do hipocampo quando ainda somos muito pequenos. O hipocampo é uma estrutura cerebral fundamental, que nos permite codificar e armazenar a memória episódica.

E o que acontece com essa estrutura? O hipocampo ainda é imaturo durante a infância. Isso explicaria o fato de que o cérebro ainda não tem maturidade o suficiente para armazenar esse tipo de memória da infância.

Memórias falsas

O que acontece é que formamos uma imagem mental de X coisas que alguém nos disse que vivemos (neste caso, a imagem do carro) e, aos poucos, a nossa mente transforma essa imagem em algo que experimentamos como se estivesse na nossa memória.

Conforme podemos ver, as informações fornecidas pelos outros podem nos levar a “fabricar” falsas memórias.

Também pode acontecer que tenhamos uma memória mais ou menos nítida e que as “novas” contribuições dos outros nos levem a modificar ou enriquecer essa memória com outros detalhes que, na verdade, não existiram. Esta é uma das armadilhas da memória.

Lembrança inconsciente

Isso não quer dizer que as pessoas que afirmam se lembrar de eventos como o seu nascimento ou outras experiências estejam mentindo. Na sua cabeça, essa memória existe, embora na realidade se trate de uma memória fabricada, que elas não tem realmente no seu cérebro.

“Todos fazemos isso, porque estamos construindo memórias com o que está à mão, e, às vezes, esses pedaços se desorganizam.”

-Martin Conway-

Os bebês conseguem formar memórias

A amnésia infantil não requer tratamento.
Para algumas pessoas, pode ser muito difícil evocar memórias da infância.

No entanto, além da memória fictícia, alguns especialistas afirmam que os bebês têm a capacidade de formar memórias. O que acontece é que elas são esquecidas rapidamente.

Por outro lado, em nível autobiográfico, as crianças de cinco anos conseguem identificar e recordar uma situação que viveram quando tinham dois anos. Assim, na amnésia infantil, não é que as crianças menores de três anos não tenham memória, mas sim que são incapazes de lembrar o que acontece.

São memórias que acabam se volatilizando com o tempo. É por isso que falamos de uma verdadeira amnésia, porque não é que “as memórias não existam”, mas sim que desaparecem com o tempo.

Nossas primeiras memórias

Conforme foi visto, a amnésia infantil é o que explicaria por que não nos lembramos dos primeiros anos de nossas vidas. Ela abrange os eventos ocorridos desde o momento em que nascemos até os três ou quatro anos de idade.

Não nos lembramos desses primeiros anos porque, durante a infância, o cérebro ainda não está pronto para armazenar esse tipo de memória episódica. Isso também está relacionado à ausência de linguagem, pois, se não tivermos o conceito para designar uma experiência, é muito improvável que possamos armazená-la e muito menos evocá-la.

“Somos todos parte do que nos lembramos. Guardamos em nós as esperanças e os medos daqueles que nos amam. Contanto que exista amor e lembrança, não existirá perda de fato.”

-Cassandra Clare-

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  • Bauer, P. J. & Larkina, M. (2014). The onset of childhood amnesia in childhood: A prospective investigation of the course and determinants of forgetting of early-life events. Memory.
  • Billig, M. y Edwards, D. (1994): La construcción social de la memoria. Mundo Científico, 150(14):
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  • Diges, M. y Perpiñá, C. (1994): Psicopatología de la Memoria. En A. Belloch, F. Ramos y B.
    Sandín (Comps.): Manual de Psicopatología. Vol. I.
  • Usher, J; Neisser U (1993). «Childhood Amnesia and the Beginnings of Memory for Four Early Life Events». Journal of Experimental Psychology, 122: 155-165. 
  • West, T; Bauer P (1999). «Assumptions of Infantile Amnesia: Are There Differences Between Early and Later Memories?». Memory, 7(3): 257-278.