Síndrome do sotaque estrangeiro: em que consiste?

28 março, 2021
This article has been written and endorsed by el médico Diego Pereira
Os traumatismos e a doença cerebrovascular são algumas das causas desta doença.

É possível que, após alguns eventos ou doenças, a pessoa afetada tenha dificuldade para falar com o sotaque que costumava ter. Esse distúrbio é conhecido como síndrome do sotaque estrangeiro.

Embora seja conhecido há mais de um século, são muito poucos os casos relatados até o momento. Se você quiser saber um pouco mais sobre essa interessante condição, continue lendo!

Principais características da síndrome do sotaque estrangeiro

É uma doença rara caracterizada pela dificuldade em emitir palavras de acordo com a pronúncia ou a entonação com as quais o indivíduo afetado estava acostumado a falar. Ou seja, a estrutura gramatical das frases articuladas está correta, mas muda a forma como elas são pronunciadas.

Para as pessoas próximas aos pacientes dos primeiros casos notificados, isso representou uma mudança de sotaque, o que deu origem ao nome da síndrome. Por exemplo, uma pessoa com sotaque britânico poderia sofrer um evento cerebral que a levasse a falar de uma forma semelhante ao sotaque do inglês americano.

De acordo com este artigo de revisão científica, a síndrome do sotaque estrangeiro se baseia em dois déficits diferentes: segmentar e prosódico. O primeiro distúrbio consiste em uma mudança na pronúncia das vogais, principalmente no que diz respeito ao tempo de articulação das palavras.

Os problemas prosódicos se referem a mudanças na articulação entre palavras diferentes, aumentando ou diminuindo o tempo entre as sílabas e, por sua vez, introduzindo ou eliminando vogais nas frases.

Na maioria dos casos relatados, trata-se de um distúrbio adquirido; portanto, é necessário que haja algum tipo de lesão cerebral (que mencionaremos mais adiante) para causar os sintomas. Algumas revisões sugerem que, devido à escassez de casos relatados nas últimas décadas, esta é uma condição com uma incidência muito baixa, apesar dos seus sintomas marcantes.

A síndrome do sotaque estrangeiro é causada por distúrbios cerebrais.
Problemas anatômicos e funcionais do sistema nervoso central podem causar esses sintomas.

Alguns antecedentes históricos da síndrome do sotaque estrangeiro

O primeiro registro da doença data do ano de 1907, graças ao trabalho do neurologista Pierre Marie (1853-1940). A paciente em questão havia apresentado doença cerebrovascular, tendo como sequela uma hemiplegia direita (paralisia desse lado do corpo).

Com o tempo, a paciente começou a ter dificuldade para pronunciar as palavras com o seu sotaque usual. Ela era parisiense e começou a falar como se fosse de outra região da França.

Outro caso semelhante ocorreu em 1943 com uma paciente norueguesa chamada Astrid. O médico Georg Monrad-Krohn (1884-1964) avaliou este caso depois que a paciente sofreu um ferimento por arma de fogo no cérebro.

Ela conseguiu sobreviver, apesar de ter o mesmo problema de paralisia apresentado no caso avaliado pelo Dr. Pierre Marie. Com o tempo, ela também passou a ter dificuldade para pronunciar algumas palavras, apresentando um sotaque bastante semelhante ao alemão. Isso poderia causar vários problemas pessoais, uma vez que a Segunda Guerra Mundial estava em pleno andamento, de acordo com algumas revisões.

Com o tempo, o termo foi ganhando popularidade gradativamente, embora ainda hoje a doença seja considerada uma entidade clínica muito estranha e até mesmo pouco conhecida pelos médicos.

O que pode causar a doença?

A seguir, vamos citar algumas das causas mais frequentes relacionadas a essa patologia.

Doença cerebrovascular (DCV)

De acordo com este artigo científico, em 2011, ocorreram 116.017 casos de acidentes vasculares cerebrais na Espanha, o que representa uma das principais causas de morbilidade (e mortalidade) na população daquele país.

Tende a afetar mais os idosos, especialmente aqueles com fatores de risco cardiovascular: obesidade, diabetes mellitus, síndrome metabólica e aterosclerose.

As doenças cerebrovasculares são causadas por problemas na circulação arterial e venosa do sistema nervoso central, como é o caso dos acidentes vasculares cerebrais. Em outras situações, como nos acidentes isquêmicos, ocorre uma obstrução causada por substâncias sólidas que foram geradas em outras partes do corpo.

Isso pode ocorrer, por exemplo, como resultado de uma trombose venosa profunda. Neste caso, um coágulo sanguíneo causa a obstrução de uma veia importante, causando um aumento de volume em algum dos membros inferiores, juntamente com dor e mudança de coloração.

Esses coágulos podem migrar desse local para os pulmões e o cérebro, causando a DCV. Para evitar esse tipo de complicação, existem alguns sinais de alerta que você pode aprender a detectar.

Traumatismos

A síndrome do sotaque estrangeiro pode se desenvolver após um traumatismo.
Os traumatismos podem desencadear esta e outras síndromes.

Vários dos casos relatados de síndrome do sotaque estrangeiro têm a ver com traumatismos cranioencefálicos de gravidade variável. Neste relato de caso, são descritas as características de uma mulher de meia-idade que sofreu um traumatismo no hemisfério cerebral direito, apresentando uma lesão vascular como complicação.

Durante o processo de recuperação, a paciente começou a falar em sua língua nativa (o espanhol), com uma mudança profunda na pronúncia que ela não conseguia evitar. Ao consultar várias pessoas, as opiniões foram diversas, identificando a sua origem como britânica, francesa ou alemã. Em suma, era um caso típico dessa doença.

Os traumatismos, assim como as demais causas mencionadas neste artigo, parecem coincidir quanto aos locais anatômicos da lesão principal. Alguns deles são os seguintes:

  • A área pré-motora.
  • Os gânglios da base, estruturas vitais relacionadas à doença de Parkinson.
  • O cerebelo.

Esclerose múltipla

Esta é uma doença crônica, inflamatória e autoimune, caracterizada por danos ao revestimento natural dos nervos, chamado de bainha de mielina. Isso, a longo prazo, afeta a transmissão correta dos impulsos elétricos ao longo do corpo, o que dá origem aos principais sintomas da doença.

As manifestações clínicas são muito diversas, algo que pode atrasar o diagnóstico. Por exemplo, podem ocorrer distúrbios visuais como resultado da inflamação do nervo óptico. Também pode haver fadiga, dificuldade para articular algumas palavras, visão dupla, convulsões e outros movimentos anormais e involuntários.

Sua relação com a síndrome do sotaque estrangeiro foi pouco explorada por causa da escassez de casos. Em 2003, foi publicado este estudo no qual um paciente jovem (38 anos) apresentava um quadro clínico espontâneo de distúrbios de linguagem que, com o tempo, foram diagnosticados como uma consequência da esclerose múltipla.

Diagnóstico

O diagnóstico geralmente é feito do ponto de vista clínico, levando em consideração o histórico pessoal do paciente. Essa síndrome pode ser frequentemente confundida com outros distúrbios de linguagem e, portanto, pode ser uma condição mal diagnosticada.

Dependendo da causa mais provável, o médico pode solicitar qualquer um dos seguintes exames para complementar o diagnóstico clínico:

  • Tomografia computadorizada.
  • Ressonância magnética nuclear.

Existem várias diferenças entre os dois exames, especialmente em termos de custo, qualidade de imagem e indicações. Além disso, as tomografias computadorizadas emitem radiação para funcionar, algo que não acontece na ressonância magnética.

Tratamento

Não há tratamento definitivo para essa condição. Isso é lógico, considerando o pouco que se sabe sobre a doença, bem como sobre as características particulares das condições que a causam.

No entanto, a terapia fonoaudiológica precoce pode proporcionar alívio sintomático em um grande número de casos. Este tratamento tem como objetivo realizar um treinamento específico para alterar a pronúncia de algumas palavras.

Uma condição estranha e curiosa

A síndrome do sotaque estrangeiro é uma condição muito particular que ainda não é bem compreendida. Caso apresente sintomas semelhantes aos descritos neste artigo, é aconselhável procurar um neurologista de confiança, que é o especialista em doenças do sistema nervoso.

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