O que é amnésia alcoólica?

A amnésia alcoólica é uma perda de memória causada pelo consumo de álcool. Se você quiser saber o que acontece no cérebro nesta situação e quais são as variantes existentes, continue lendo!
O que é amnésia alcoólica?
Laura Ruiz Mitjana

Escrito e verificado por la psicóloga Laura Ruiz Mitjana em 02 Maio, 2021.

Última atualização: 02 Maio, 2021

O álcool é uma substância depressora do sistema nervoso, uma droga legalizada e que causa um significativo impacto físico e psicológico nas pessoas, produzindo danos irreversíveis à saúde. Um desses efeitos é a amnésia alcoólica, produzida pelo consumo massivo dessa substância.

Assim, o seu consumo abusivo chega a ser um problema de saúde pública em muitos países e, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais da metade da população da Europa e das Américas consome álcool.

Além disso, entre 11 e 15% dos homens sofrem de dependência crônica dessa substância, contra 3-5% das mulheres. O que mais sabemos sobre a amnésia alcoólica? Ela é temporária ou crônica? Quais são as suas consequências? Existem variantes dela?

O que é amnésia alcoólica?

A amnésia alcoólica causa danos temporários.
O consumo excessivo de álcool nunca é benéfico.

A amnésia alcoólica, também chamada de blecaute alcoólico, é uma alteração neuropsicológica que ocorre na memória como resultado do consumo de álcool. Assim, a sua principal característica é a perda de memória.

De acordo com um estudo de Calvo (2003), a memória é um dos processos mais comumente alterados em alcoólatras (especialmente a memória de curto prazo). A amnésia alcoólica é um tipo de amnésia transitória, que está ligada ao consumo de álcool, na forma de blecaute (blecaute alcoólico) e que configura um episódio de amnésia anterógrada.

De fato, esse tipo de amnésia é um dos aspectos explorados na clínica médica quando é feito o diagnóstico de dependência ou abuso de álcool.

Transtorno agudo

Conforme já foi dito, a amnésia alcoólica é um transtorno agudo do consumo do álcool, que é temporária e pode surgir juntamente com outros transtornos, tais como: delirium tremens, convulsões, intoxicação atípica, distúrbios do sono ou disfunções sexuais, entre outros.

Envolvimento do hipocampo

Essa amnésia ocorre quando o álcool interfere no funcionamento normal do hipocampo, a estrutura cerebral envolvida em diferentes tipos e processos de memória. No entanto, também há  outras implicações em nível cerebral, que veremos mais adiante.

Diferentes tipos

Por outro lado, esse tipo de amnésia relacionada ao álcool, também chamada de blecaute alcoólico, pode ser de três tipos: dependente do estado, fragmentada ou em bloco. Vamos descrever cada um desses qaudros a seguir.

Tipos de amnésia alcoólica

Kopelman (1991) descreve diferentes tipos de fenômenos amnésicos relacionados ao consumo de álcool, que são os três tipos já mencionados:

Amnésia dependente do estado

Nesse tipo de amnésia, a pessoa se esquece de ações realizadas enquanto esta bêbada e volta a se lembrar delas quando fica bêbada novamente (por exemplo: a pessoa esconde dinheiro em um lugar enquanto está bêbada, e só consegue se lembrar desse lugar quando fica bêbada novamente).

É um tipo de amnésia que frequentemente afeta as pessoas que não são dependentes do álcool mas que às vezes o consomem excessivamente (consumindo grandes quantidades de álcool em um curto período de tempo).

Amnésia fragmentada

Nesse caso, não há uma demarcação clara dos limites temporais  da perda de memória. Assim, o sujeito apresenta ilhas de memórias preservadas dos períodos de amnésia.

Amnésia em bloco

Na amnésia em bloco, de acordo com Kopelman, há limites temporais definidos para o período amnésico durante o qual podem ocorrer fugas e nos quais a pessoa não tem nenhuma lembrança do episódio.

O que acontece em nível cerebral?

Quando consumimos álcool, essa substância afeta principalmente algumas áreas específicas do cérebro: o córtex cerebral frontal, o hipotálamo e o cerebelo. Essas áreas estão relacionadas a diferentes processos cognitivos (atenção, memória, planejamento…) e emocionais, bem como processos relacionados ao movimento.

Porém, de todos esses processos, a memória é a função cognitiva mais afetada quando o álcool é consumido em excesso, por isso a alta prevalência de casos de amnésia alcoólica em usuários habituais.

Quem pode apresentá-la?

Não basta consumir álcool para sofrer de amnésia alcoólica. As pessoas que correm maior risco de apresentá-la são aquelas com um transtorno de dependência do álcool, geralmente de longa duração. Ela também pode surgir em quem consome bebidas alcoólicas em um episódio de “compulsão”.

O que é um episódio de compulsão? Um episódio de “compulsão” de álcool é a ingestão sucessiva de cinco ou mais bebidas alcoólicas, no caso dos homens, ou de quatro ou mais no caso das mulheres, em um intervalo de tempo de duas horas ou menos. Assim, essas pessoas também correm o risco de sofrer um transtorno agudo relacionado à memória, como a amnésia alcoólica.

Quanto às pessoas com um transtorno de dependência ou dependentes do álcool, não é incomum que elas sofram algum comprometimento cognitivo, muitas vezes relacionado à memória. Dessa forma, a amnésia alcoólica nessas pessoas é bastante frequente.

Causas da amnésia alcoólica

Nesse tipo de amnésia, ocorre um distúrbio químico e neurológico do hipocampo. Devemos nos lembrar de que essa é uma estrutura cerebral envolvida em vários processos de memória. Quando o álcool é ingerido em excesso, os receptores do hipocampo são alterados.

Esses receptores transmitem o glutamato, uma substância estimulante (neurotransmissora) que facilita a comunicação entre os neurônios. Se esse processo for alterado, as funções cognitivas responsáveis pela estrutura em questão (o hipocampo) também serão alteradas.

Mais especificamente: como consequência desse consumo, os neurônios produzem esteroides que, por sua vez, dificultam a comunicação entre os neurônios. O que acontece no curto prazo? O cérebro perde, temporariamente, a capacidade de criar novas memórias. Por sua vez, ocorre uma perda de acesso às memórias anteriores.

Assim, a pessoa que apresenta esta alteração pode fazer muitas coisas durante o seu dia a dia, mas se lembrar de muito poucas (ou nenhuma) delas.

Outras variáveis que influenciam

Embora a amnésia alcoólica, conforme foi visto, ocorra principalmente em pessoas viciadas em álcool e que consomem a substância ao longo de muitos meses ou anos, na verdade, todas essas alterações cerebrais ocorrem, sobretudo, por beber rápido demais.

Além disso, também influenciam outras variáveis, tais como: a graduação alcoólica da bebida em questão e o fato de estar com o estômago vazio ou não (se o estômago estiver vazio, o risco de amnésia alcoólica é maior porque o impacto do álcool também é maior).

Por outro lado, outro fator que também influencia no seu aparecimento é a capacidade de cada pessoa para metabolizar a substância; essa capacidade depende, por sua vez, de fatores genéticos e da frequência com que o álcool é consumido.

O impacto do álcool

A amnésia alcoólica pode ser perigosa.
Além da amnésia alcoólica, também podem surgir complicações graves nesses pacientes.

O impacto do álcool na nossa saúde é um fato inegável. Além disso, esse impacto é ainda mais grave nas pessoas que são consumidoras habituais de álcool e, sobretudo, nas que apresentam algum transtorno de dependência (seja por abuso ou dependência da substância).

Conforme a OMS afirma, o uso nocivo do álcool é um fator causal em mais de 200 doenças e transtornos. De fato, de acordo com a mesma organização, 5,1% da carga global de morbilidade e lesões pode ser atribuída ao uso dessa substância.

Entre todos esses efeitos, encontramos a amnésia alcoólica, embora haja muitos outros efeitos possíveis dessa substância.

Distúrbios agudos e crônicos

O consumo de álcool pode produzir dois tipos de distúrbios: agudos e crônicos. Dentre os agudos, encontramos:

  • Intoxicação aguda (atípica).
  • Síndrome de abstinência não complicada (convulsões, delirium tremens e delírio ocupacional).
  • Alucinose alcoólica.
  • Amnésia parcial (blecaute) ou amnésia alcoólica.
  • Distúrbios do sono.
  • Disfunções sexuais.

E, dentre os distúrbios crônicos produzidos pelo álcool, ainda mais graves porque são permanentes, encontramos as alterações cognitivas, a encefalopatia de Wernicke-Korsakoff e as disfunções sexuais.

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  • Calvo, H. (2003). Alcohol y neuropsicología. Trastornos Adictivos, 5(3):256-68.
  • Carlson, N.R. (2002). Fisiología de la conducta. . Barcelona: Ariel.
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  • Iglesias, E. B. (2014). Trastornos relacionados con sustancias y trastornos adictivos. Cuadernos de medicina psicosomática y psiquiatria de enlace, (110):58-61.
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