O que é dependência emocional e como superá-la?

28 março, 2021
This article has been written and endorsed by la psicóloga Laura Ruiz Mitjana
A dependência emocional, de acordo com especialistas, é uma espécie de vício em relacionamentos que nos causam sofrimento. É uma forma de se conectar com o outro a partir da necessidade de ser amado e não do desejo de que isso aconteça. Saiba mais sobre este conceito e como isso pode ser superado!

Vivemos em uma sociedade onde é cada vez mais comum encontrarmos pessoas que sofrem por amor, imersas em relacionamentos nos quais não são felizes, mas que, no entanto, sentem-se incapazes de abandonar. Por trás de muitos desses relacionamentos encontramos, na verdade, pessoas com forte dependência emocional.

Mas o que realmente é a dependência emocional? Trata-se de uma forma de se relacionar com os outros a partir do medo de ser abandonado, como se dependêssemos dessa relação para sermos felizes (algo tendencioso).

De acordo com Valor et al. (2009), citado em um estudo de Rodríguez de Medina (2013), a dependência emocional é concebida como uma dependência excessiva de uma relação interpessoal, que afeta a visão de si mesmo (self) e a dos outros. O que mais sabemos sobre esse conceito? Vamos recorrer aos especialistas no assunto para responder a essas perguntas.

O que é dependência emocional?

A dependência emocional não é fácil de lidar.
Momentos ruins geralmente afetam o dia a dia da pessoa com dependência emocional.

A dependência emocional é esse apego que ocorre em relações interpessoais e que pode gerar um verdadeiro sofrimento. Aparece principalmente em relações amorosas, mas também pode surgir em outros tipos de relacionamento.

A pessoa com dependência emocional sente grande necessidade de ajudar os outros e/ou ceder diante de determinadas ações e/ou opiniões. Além disso, essas pessoas também podem manifestar diversas outras características específicas, tais como:

  • Um déficit nas habilidades sociais e na resolução de conflitos.
  • Desejos de exclusividade em relação às pessoas queridas.
  • Dificuldades para tomar decisões em grupo e/ou estabelecer limites.
  • A amizade e o carinho podem se tornar uma fonte de angústia e sofrimento.

A dependência emocional de acordo com uma especialista

De acordo com Silvia Congost, psicóloga especializada em relacionamento conjugal, dependência emocional e autoestima, autora de 9 livros que tratam desse assunto, a dependência emocional é como um vício. No mundo dos casais, isso envolve a atração por pessoas das quais nos sentimos “prisioneiros”.

Geralmente são parceiros que não nos correspondem porque, no fundo, não estão procurando o mesmo que nós. Porém, por causa da dependência emocional, conforme afirma a psicóloga, mergulhamos em relações que, no fundo, causam sofrimento, mas das quais somos incapazes de sair.

De fato, por trás de muitos relacionamentos tóxicos, existe uma forte dependência emocional por parte de um ou de ambos os membros do casal.

“A dependência gera temor. Se eu depender de você emocionalmente, psicologicamente ou espiritualmente, serei seu escravo e, portanto, terei medo de você. Não é uma opinião, mas sim um fato.”

-Jiddu Krishnamurti-

O que uma pessoa dependente sente?

Silvia Congost resume da seguinte forma: de acordo com ela, uma pessoa emocionalmente dependente fica em relacionamentos que não a fazem feliz, que não são o que ela deseja, mas que ela não consegue abandonar. São pessoas que se sentem incapazes de romper o relacionamento.

Isso, logicamente, causa sofrimento, mas elas se sentem viciadas nessa “droga” que geralmente é uma relação que se baseia em uma montanha-russa emocional, com picos muito altos de intensidade e “quedas” drásticas, até o próximo ciclo de adrenalina.

Tudo isso no sentido emocional, ou seja, são relacionamentos nos quais se sente muito, mas também se sofre muito. Nesse sentido, muitas vezes são relacionamentos tempestuosos.

Como superar a dependência emocional?

Walter Riso (2013), Doutor em Psicologia com especialização em Terapia Cognitiva e também especialista em dependência emocional, escreveu diversos livros que abordam esse assunto. Por meio de um breve guia proposto pelo psicólogo, encontramos uma série de ideias-chave para superar a dependência emocional:

Entender claramente o que é o apego e o desapego afetivo

A primeira proposta de Walter Riso consiste em analisar a definição desses conceitos e verificar se entendemos claramente ou não o que é a dependência emocional. De acordo com Riso (2013), o apego afetivo é um vínculo mental e emocional (geralmente obsessivo) com determinadas pessoas.

Esse vínculo se origina da crença irracional de que esse vínculo vai fornecer, de forma única e permanente, três coisas: prazer, segurança e autorrealização.

Ao lidar com a dependência emocional, teremos que rever os nossos conceitos e esclarecer se temos consciência ou não do que a dependência emocional representa. Uma vez que isso for feito, poderemos começar a nos perguntar se estamos ou não em um relacionamento desse tipo.

Reconheça a dependência em você mesmo

O próximo passo para superar esse apego mal-adaptativo aos relacionamentos é reconhecer a nossa própria dependência emocional. De acordo com Riso, a dependência é um continuum, e é possível sofrer mais ou menos apego em relação ao parceiro de acordo com a intensidade em que aparecem as características já descritas anteriormente.

Algumas deles (embora existam mais), vamos lembrar, incluem:

  • A necessidade urgente de estar perto da pessoa amada ou de sentir amor na maior parte do tempo.
  • Abstinência manifesta, caso não haja manifestações de afeto ou se a pessoa amada não estiver disponível.
  • Incapacidade de controlar a compulsão de estar com a pessoa amada.
  • Gastar muito tempo mental e físico permanecendo perto do parceiro ou objeto de amor.

Rever a nossa própria história

A dependência emocional pode exigir terapia.
Em muitas ocasiões, a terapia mental geralmente se torna necessária para lidar com os sintomas de dependência emocional.

Muitas vezes, a maneira como aprendemos a nos relacionar com as nossas figuras paternas é o que mais determina (ou influencia) a forma como nos relacionaremos com nossos parceiros.

Não queremos ser alarmistas aqui, já que tudo pode ser mudado e trabalhado, mas é fato que os primeiros apegos durante a infância têm enorme influência sobre a nossa forma de nos vincular na vida adulta.

Portanto, pergunte-se sobre a sua história; você pode tentar passar alguns minutos revendo e escrevendo em um diário sobre como você se sentiu durante a infância. Não se trata de mergulhar no sofrimento, mas sim de captar o essencial, ver que tipo de déficit você tinha para ser capaz de trabalhar para “passar uma borracha e começar do zero”. Isso também pode ser feito por meio da terapia psicológica.

Separar paixão de amor

Todos nós sabemos que, quando nos apaixonamos, o nosso mundo emocional se torna muito intenso; tudo parece novo e fascinante, e podemos nos sentir muito atraídos por pessoas que talvez não sejam ideais para nós. Mas a paixão é isso, é “perder” a razão e se deixar levar pela emoção.

A neuroquímica do amor é fascinante, pois envolve diversos neurotransmissores e várias endorfinas, tais como dopamina ou serotonina. Por outro lado, o amor é um conjunto mais estável e regular, que é formado por atração, sexo, amizade, comunicação, ternura e doçura.

É algo muito mais lento, e seria como a construção saudável de uma história e de um relacionamento que se desencadeia com a paixão. Recomendamos fazer este pequeno exercício: tente separar os dois conceitos. Isso vai te ajudar a relativizar as coisas e a entender melhor se você está ou não em um processo de dependência emocional.

Identificar crenças irracionais

Por trás da dependência emocional, escondem-se muitas crenças irracionais em relação ao conceito de amor, de apego, dos vínculos… Muitas dessas crenças nos mantêm presos na dependência e, ao mesmo tempo, também nos afastam do realismo afetivo. O realismo afetivo envolve ver as coisas como elas são quando se trata de amor.

Envolve eliminar os vieses e o autoengano que muitas vezes criamos quando nos apaixonamos. Por outro lado, as crenças irracionais têm a ver com esse autoengano, com a tendência de não se referir às coisas como elas são, mas sim como gostaríamos que fossem. Alguns exemplos disso são:

  • “Ele me ama, mas ainda não percebeu.”
  • “Ele vai se separar em breve.”
  • “Não é tão horrível.”
  • “No fundo, ele me ama.”
  • “Não lembro mais das coisas ruins.”

Essas crenças, por sua vez, frequentemente se baseiam em distorções cognitivas, que são erros que cometemos ao interpretar a realidade. As distorções cognitivas geram sofrimento porque “obscurecem” a realidade, a distorcem e nos impedem de agir com objetividade.

Tomar decisões

Outra ideia-chave que pode nos ajudar no combate à dependência emocional é passar à ação, ou seja, a tomar decisões. Se você está sofrendo no seu relacionamento, sente que não se diverte ou experimenta alguma das características já explicadas desse conceito, então se pergunte o que você quer fazer da sua vida.

Você realmente quer estar com essa pessoa? Ou é a dependência que faz com que você fique “preso” a ela? O que você realmente quer? Reflita sobre isso e entre em ação.

Pense que, quando sofremos de dependência emocional, não vemos as coisas como realmente são e somos muito influenciados por um grande número de crenças limitantes. Além disso, devemos nos lembrar de que essa é uma maneira doentia de se relacionar com as pessoas.

Terapia psicológica: uma opção

Outra decisão que você pode tomar neste caso é a de pedir ajuda profissional, para que possa começar a trabalhar em outras formas mais saudáveis de se relacionar com os outros.

Este é um caminho para o autocuidado e o realismo afetivo que implica em construir relações equilibradas, de “igual para igual”, com base na liberdade e no amor, e não no medo de ser “abandonado”.

Começar a trabalhar em você

E você, sofre quase constantemente por amor nos seus relacionamentos? É provável que, na verdade, você esteja sofrendo de dependência, já que o amor não gera esse sofrimento, mas sim esse apego insano.

Caso sinta que a sua forma de se relacionar com os outros se baseia no medo de que te deixem, abandonem ou enganem, ao invés de se basear em uma forma de ser feliz com o outro, a partir da sua própria individualidade e não como algo de que você “precisa” para ser feliz, então pode ser que você sofra de dependência emocional.

Se esta é a sua situação e você deseja aprender outras maneiras mais saudáveis de estabelecer relacionamentos emocionais e de amizade, recomendamos que comece a refletir sobre tudo o que foi dito acima. Por outro lado, iniciar um processo psicoterapêutico também pode te ajudar a construir relacionamentos a partir do amor e não por necessidade.

Um caminho que vale a pena

O caminho para a ausência de dependência não é um caminho fácil, principalmente para as pessoas que se relacionam com os outros da mesma forma há muito tempo. Trata-se de algo bastante arraigado em muitas pessoas por causa de padrões afetivos com muitos anos de história.

No entanto, quando começar a trabalhar na sua mudança e começar a viver essas relações de uma forma mais saudável, você verá como o processo terá valido a pena. Porque isso sim é amor. E amor dos bons (e saudáveis).

“A pessoa que amo é uma parte importante da minha vida, mas não a única.”

-Walter Riso-

  • Castello, J. (2000). Análisis del concepto "dependencia emocional”, Congreso Virtual de Psiquiatría.
  • Congost, S. (2017). Si duele, no es amor. Editorial Zenith.
  • Riso, W. (2003). Amar o depender?: cómo superar el apego afectivo y hacer del amor una experiencia plena y saludable. Editorial Norma.
  • Riso, W. (2004). Pensar bien, sentirse bien. Editorial Norma.
  • Rodríguez de Medina, I. (2013). La dependencia emocional en las relaciones interpersonales. ReiDoCrea: Revista electrónica de investigación y docencia creativa, 2: 143-148.
  • Valor-Segura, I., Expósito, F. y Moya, M. (2009). Desarrollo y validación de la versión española de la Spouse-Specific Dependency Scale (SSDS). International Journal of Clinical and Health Psychology, 9: 479-500.