O que é dispepsia?

13 abril, 2021
This article has been written and endorsed by el médico Diego Pereira
Algumas patologias orgânicas que podem causar dispepsia são a úlcera péptica e a gastrite. Com menor frequência, o câncer gástrico também pode causar esses sintomas.

A dispepsia é um dos motivos mais frequentes de consulta aos gastroenterologistas. Trata-se de um conjunto de sintomas caracterizados por desconforto gastrointestinal, geralmente associado ao consumo de alimentos.

Apesar de sua alta prevalência, apenas em poucos casos é possível chegar a um diagnóstico específico que explique a causa. Se você tem interesse em conhecer as razões para isso, preparamos o artigo a seguir falando sobre as características mais importantes dessa condição. Continue lendo!

Dispepsia: sintoma ou doença?

A dispepsia é comum na população em geral.
A dispepsia é um sintoma e as suas causas podem ser muito diversas.

Trata-se de um conjunto de sintomas gastrointestinais diversos e inespecíficos que às vezes ocorrem como consequência de uma doença pré-existente. Por esse motivo, a dispepsia não pode ser considerada como uma doença, mas sim como o resultado de diversas alterações fisiopatológicas.

Do ponto de vista clínico, geralmente afeta a região central e superior do abdômen, conhecida como epigástrio. As sensações podem ser variadas, incluindo dor e queimação. Alguns sintomas gerais, tais como distensão abdominal, náuseas, vômitos e empachamento após a ingestão de pequenas quantidades de comida, também são comuns.

De acordo com este artigo de revisão científica (2014), na Espanha, por exemplo, a dispepsia pode atingir valores de prevalência de até 24%, apesar de muitos pacientes evitarem procurar um médico e preferirem a automedicação com medicamentos de venda livre. Portanto, esses últimos casos não são registrados.

Classificação da dispepsia

Ela pode ser dividida em dois tipos: funcional e orgânica. A primeira ocorre na ausência de uma patologia, enquanto na segunda há uma causa óbvia. A seguir, vamos descrever as particularidades de cada uma.

Funcional

Esse tipo de dispepsia não está relacionado a patologias orgânicas importantes, como as úlceras pépticas. Para chegar ao diagnóstico, o médico pode recorrer a diversos exames complementares, que vamos comentar mais adiante.

Embora a busca exaustiva de doenças não tenha nenhum resultado na dispepsia funcional, é lógico pensar que haja alguma alteração fisiopatológica por trás dos sintomas. Durante anos, isso foi um mistério, até  que esta meta-análise (2018) foi publicada.

Para realizar este estudo, os autores revisaram 37 publicações de alta qualidade nas quais foram publicados alguns achados microscópicos na mucosa gástrica e duodenal de pacientes com dispepsia funcional.

Por meio de diversos métodos estatísticos, chegaram à conclusão de que o mecanismo envolvido é o aparecimento de fenômenos microinflamatórios, com abundância de eosinófilos e mastócitos.

Por razões práticas e financeiras, esse tipo de procedimento não é realizado rotineiramente. Assim, uma vez que é descartada a presença de patologias importantes, os médicos geralmente indicam tratamentos prolongados para reduzir ou eliminar os sintomas.

Orgânica

As infecções podem causar dispepsia.
A infecção por H. pylori é uma causa comum desse sintoma.

Nesse caso, os sintomas surgem como resultado de algum problema de saúde. Cada um tem seus próprios métodos de diagnóstico e as causas mais importantes são as seguintes:

  • Úlcera péptica: é uma condição caracterizada pelo aparecimento de lesões escavadas na mucosa gástrica ou duodenal. Geralmente causa dor intensa e queimação. Em alguns pacientes, pode ser a causa de uma hemorragia gastrointestinal.
  • Infecção por Helicobacter pylori: esta bactéria é responsável por muitos casos de gastrite crônica. Embora na maioria dos casos o quadro clínico se limite à dispepsia, em alguns pacientes ele pode evoluir para um câncer gástrico.
  • Cálculos biliares: é uma doença muito comum em que há um acúmulo de substâncias endurecidas dentro da luz da vesícula ou dutos biliares. Quando ocorre uma infecção associada, é chamada de colecistite ou colangite.
  • Câncer pancreático ou gástrico: ambas as condições têm um prognóstico ruim, especialmente porque o seu diagnóstico geralmente é tardio. Alguns sintomas de alerta são as hemorragias digestivas e a perda de peso inexplicável.

Outras causas muito menos comuns incluem a pancreatite crônica, alguns distúrbios metabólicos e o diabetes mellitus mal controlado. Neste último caso, a dispepsia é uma consequência da lesão dos nervos devido à elevação persistente da glicose no sangue (neuropatia diabética).

Diagnóstico

Conforme mencionado anteriormente, a dispepsia não é uma doença. Portanto, a princípio, o diagnóstico parece óbvio. No entanto, a verdadeira importância de procurar um médico está em determinar a origem dos sintomas.

Por esse motivo, o gastroenterologista tem como objetivo determinar se o quadro se trata de dispepsia funcional ou orgânica. Para isso, os pacientes geralmente são diferenciados de acordo com a probabilidade de apresentarem dispepsia funcional. O uso de escalas de avaliação clínica permite que especialistas determinem essa probabilidade.

Se o médico suspeitar da existência de uma patologia prévia que explique os sintomas, ele pode recorrer a diversos exames para fazer o diagnóstico.

Exames complementares

O método mais eficaz é a endoscopia digestiva alta. Essa técnica se baseia na introdução de um tubo flexível acoplado a uma câmera de alta resolução, que pode ser introduzido (após sedação) através da boca do paciente.

Isso permite a correta visualização das estruturas gastrointestinais, além de permitir a realização de biópsias nos locais de interesse.

Existem métodos menos específicos, mas que igualmente podem ser úteis para o diagnóstico, tais como:

  • Hemograma completo.
  • Ecografia abdominal.
  • Detecção de H. pylori por meio de estudos sorológicos e determinação de antígenos nas fezes, entre outros exames.

Tratamento

Assim como muitos outros distúrbios gastrointestinais, a dispepsia pode ser tratada por meio da mudança de alguns padrões alimentares e comportamentais. Quando necessário, o uso de medicamentos também é uma possibilidade.

Dieta e mudanças no estilo de vida

Essa geralmente é a primeira recomendação feita pelos médicos. De acordo com uma publicação da Clínica Mayo, as principais recomendações são as seguintes:

  1. Evitar pular refeições.
  2. Reduzir o consumo de tabaco, café e álcool.
  3. Não consumir grandes refeições.
  4. Diminuir a quantidade de alimentos e aumentar a frequência com que são consumidos.
  5. Mastigar e engolir de forma lenta e pausada.

Embora essas mudanças possam proporcionar alívio sintomático, são frequentes os casos em que o alívio não é total. Para esses pacientes, é indicado o tratamento farmacológico.

Medicamentos

Em caso de dispepsia secundária ou orgânica, o tratamento se volta para a causa dos sintomas. Por exemplo, para conseguir a eliminação da H. pylori, os médicos geralmente prescrevem omeprazol, claritromicina e amoxicilina.

Em caso de dispepsia funcional, pode ser indicado um dos seguintes medicamentos:

  • Inibidores de bomba de prótons: diminuem a secreção de ácido gástrico; um exemplo representativo é o omeprazol.
  • Procinéticos: promovem o esvaziamento gástrico e previnem o refluxo gastroesofágico. Este grupo inclui a metoclopramida, a domperidona e a cinitaprida.
  • Psicofármacos: são úteis apenas quando há um componente psiquiátrico associado.

Vivendo com dispepsia: quando é preciso procurar um médico?

Quando os sintomas são intensos ou se repetem com muita frequência, é aconselhável procurar um gastroenterologista. Dependendo do contexto, ele pode solicitar mais exames para determinar a origem da dispepsia, embora em muitos casos não haja uma patologia clara.

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